Afinação

Como a palavra já indica, AFINAÇÃO, para nós, quer dizer  “estar afim com a ação”. Ou seja, meu canto – minha ação de cantar – está em afinidade com minha natureza.

Eu, quando canto, expresso afinidade com minha essência. O fazer, o sentir e o ser estão amalgamados e sincronizados, estão afinados. A voz nasce do momento vivo, dos sentidos acesos, da consciência acordada.

Uma flor é esteticamente ‘bonita’ não porque ela quer ser ‘bonita’. É que sua afinação interna a faz exatamente como ela é, a torna inteira, afinada com o Todo e com sua natureza única. A sua consciência está viva.

Quando o cantor ‘pensa que é afinado’ – aí reside o maior perigo: o de parar de ouvir, de se renovar a cada ar inspirado (o ar é a inspiração renovada a cada momento). Assim, a afinação não é fixa, é ação. O cantor se afina a cada movimento…por isso o canto é vivo.

O som é sempre fiel ao corpo, ele sempre denuncia o que acontece desde a estrutura óssea até as camadas mais sutis. A voz nunca mente.  Ela se desdobra nessa conexão e nessa continuidade que há entre nosso organismo e os elementos do mundo físico:

Ossatura – terra

Temperatura – fogo

Musculatura – água

Deslocamento melódico – ar

Borda – éter

A falta ou o excesso de qualquer um destes elementos gera uma desafinação que, muitas vezes, pode ser mascarada por uma aparente “afinação”. Contudo, é explícito quando uma verdadeira afinação ocorre: todo o corpo ressoa e “algo” acontece.

Pode se dar vários nomes a isto – poética, força-áurica, voz-viva, voz-habitada – enfim, o fato é que quando toda a natureza interior é mobilizada e acordada no ato criativo do cantor, o que se vê é uma expressão da verdadeira afinação, que é nitidamente percebida por qualquer pessoa.

E o resultado desse canto não é simplesmente estético. Nem feio nem bonito, nem forte, nem fraco, alto ou baixo…ele apenas É. Ele existe porque vem da natureza do ser. E a natureza É. Este canto retira um quantum dos elementos da natureza e isto é sentido por todos, porque cada ser contém em si estes elementos. Eles fazem vibrar a natureza de quem canta e de quem ouve. Então esse canto também me contém, também me permeia, me penetra, me pertence: aí está o religare.

A afinação real é uma conquista a cada nota, a cada deslocamento, palavra, etc. O cantor tem que estar o tempo inteiro presente percebendo a natureza viva do seu canto, caso contrário ele é seduzido pelo bel-canto, a forma pré-estabelecida e “aprovada como certa” – a voz de 1 milhão de cópias. A voz-cópia. A voz que copia.

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Um comentário sobre “Afinação

  1. De canto em canto

    Andava de canto em canto, pois simplesmente não sabia qual era mesmo o seu próprio canto.

    Isso fazia com que andasse na rabeira do que vinha. De movimentos que não eram seus.

    Copiava para estar. Para poder ser. E acabava não sendo.

    Nada.

    Mas que fazer?

    Se pra ele esse era o caminho.

    Que fazer?

    Se o caminho pra ele era esse! Mesmo que torto se mostrasse esse rumo.

    Por isso, andava meio sem prumo. Desafinado. Desanimado. A fim de nada. Nublado de consciência.

    Triste.

    É.

    É triste, mas acontece!

    Mas acontece que um dia, dia desses como se é, decidiu pra si agregar o medo e mergulhar. Ir em busca de outro caminho. Em busca de outro canto. Em busca de um canto de si. De quem canta em ti.

    (Quem canta em ti?)

    Ele ia como que atrás de um canto que não quer ser. Mas que apenas é, pois por ser, ser que é.

    E era como se fosse.

    A partir dessa escolha, o tratado passou a ser de essências. Coisa de internos. De coluna. De fundamento. De base.

    E não poderia ser se não fosse essencial.

    E não poderia ser se não fosse fundamental.

    Foi aí que começou a afinar. Afinar a sua ação. Afina-ação. Sua Percepção se tornou viva. E ele começou a se renovar. Renovava-se a cada instante.

    A cada momento.

    A cada movimento.

    A cada vento.

    À moda cata-vento.

    Não estagnava em nada. Não se fixava. Estava desanuviando. Aos poucos. Afim de encontrar o seu canto.

    Aquecia-se de alegria cada vez mais.

    E mais.

    E mais.

    E mais.

    Sua ossatura começou a virar terra. Seus músculos se tornaram água e ele se deslocava pelo ar.

    Etéro.

    Aterrado.

    Aquoso.

    Aéreo.

    Apoiava-se nas bordas e ia.

    Cada vez mais.

    E mais.

    E mais.

    E mais.

    E como era bom ser. E como era bom estar. E como era bom re-soar.

    No aqui.

    No agora.

    No presente de estar presente.

    Ele sabia que algo acontecia. Por isso, começou a ter princípios de se manter em harmonia – uma espécie de mania de estar no ar e flutuar.

    (Sem perder a fundamental).

    Estava, então, permeado de canto. Do seu canto. Conectado com o que era. Penetrado de si.

    De fato.

    E por este ato, já não pegava mais rabeiras em outros cantos. Já não entrava mais em fluxo de movimentos que não eram seus.

    Re-ligado estava a sua essência.

    Com-ciência.

    Coisa que sempre é.

    Que sempre foi.

    E que sempre será.

    Será?

    Bom…

    Se ser, há, então há.

    Ora.

    Pois.

    Simples assim.

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