Humana Harmonia

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Objetivo

Formação de pesquisadores/orientadores da linguagem O Caminho do Canto, a partir do aprofundamento reflexivo sobre a natureza da Música e o fazer musical, assim como promover uma apropriação individual das ferramentas e dos procedimentos de experimentação e investigação artísticas propostos pela musicista Andrea Drigo, os quais integram a técnica vocal O Caminho do Canto.

Conceito

Quando falamos em ‘formação’ estamos pensando não em uma mera transferência de conceitos, práticas e nomenclaturas, pois o conhecimento é algo vivo, em processo, em devir. Não estamos trabalhando com conteúdos prontos e embalados em invólucros, que visariam consolidar um sistema de pensamento ou uma práxis metodológica. O que se pretende neste curso é, acima de tudo, fomentar o espírito crítico do pesquisador. Ambientarmo-nos na prática da investigação e no exercício da reflexão e da produção de conhecimento, pois sabemos que o sabor da pesquisa tem como corolário a aquisição do saber. Como podemos, então, começar a construir conteúdos coletivamente, baseados no estudo, no diálogo e na experimentação artística? A Música tem, desde sempre, fornecido as metáforas e a linguagem capazes de nos falar acerca das leis que regem o universo e os movimentos da natureza. Mergulhar no estudo dessa arte, em suas múltiplas potências, constitui assim um caminho válido para encontrarmos paralelos com outras instâncias do conviver humano, na busca por estruturas e organizações sociais que sejam mais inspiradoras e pulsantes; dinâmicas operacionais que permitam a expressão plena e efetiva de nossas potências singulares. Mas só será possível transformar os modos de viver e de atuar em conjunto a partir da investigação e da prática destes novos paradigmas em nossa própria existência e na escala individual de ação (em nosso entorno imediato), no desafio de achar em que bases se sustenta a humana harmonia que pretendemos e que aspiramos.

Público-alvo

Peregrinos do O Caminho do Canto que estejam frequentando as aulas em grupo ou individuais, ou que já tenham cursado a linguagem por, no mínimo, 3 anos.

Duração

Curso trimestral com frequência mensal e intensiva, cada encontro com duração de 6 horas.

Início

No dia 17 de março, das 10hs às 18hs, acontecerá um workshop-degustação que dará início ao Módulo I – A Geografia Sonora. O grupo então seguirá pelos próximos 3 meses: abril, maio e junho.

Valor do workshop-degustação (17/03): R$250,00

Valor do módulo (18 horas): 3x de $220,00 | ou à vista – R$600,00

*Após workshop de março, os encontros subsequentes serão agendados junto com o grupo.

Local – Espaço Florescer | Rua Tácito de Almeida, 147 – Pacaembú (próx ao metrô Sumaré). Contato: Nathalia Leter | (11) 981069177

Para reflexão:

Porque falar em ‘humana harmonia’?

RIZOMA é um termo da botânica adotado pelo filósofo Gilles Deleuze para falar de um modelo epistemológico. A grosso modo, diz respeito a esse processo de ramificação segundo o qual informações e conteúdos (mas também poderíamos falar em indivíduos) se reproduzem e produzindo-se geram diferença, gradações, devires, multiplicidades, compondo relações uns com os outros de formas dinâmicas; gerando sempre novos mapeamentos e territórios a partir das conexões que se estabelecem, sem nunca constituir um ‘centro’, embora este esteja em toda parte. É, na realidade, uma proposta de estrutura não-totalitária, pois nenhuma raíz se apresenta como o ‘fundamento’ ou o tronco principal a do qual depende e no qual se reflete o restante do conjunto. De maneira que, a partir dessa composição não-hierárquica dos indivíduos e das espécies, em suas intrincadas relações de codependência e troca, gera-se o sistema rizomático. Os biólogos contemporâneos ensinam que, no interior de um sistema, não se pode conceber como tal árvore ou tal planta possa existir, mantidas as suas propriedades estruturais, fora do contexto onde ela foi e segue sendo gerada continuamente, em correspondência com o meio. Ou seja, não podemos isolar o indivíduo do seu meio, ou de seu nicho. Do ponto de vista estrutural, do nosso devir biológico, tudo é comunicação e troca de informações entre o ser e o nicho com vistas à manutenção do sistema: células em comunicação com outras células, moléculas com moléculas, sistemas em intercâmbio, fluxo de substâncias, tecidos transmitindo informações de dentro para fora e vice-versa, impressões do meio sendo instantaneamente captadas e metabolizadas pelo organismo e produzindo respostas, produzindo cartografias orgânicas, gerando ‘mapas’ que decodificam sinais do fora e rapidamente atualizam a estrutura produzindo ESTRUTURA, produzindo territórios. E nesse ato corporal de responder, de corpar-se com o meio, produzimos não apenas a nós mesmos, mas também o MEIO. Porque ser e nicho se co-criam, sem que se possa estabelecer a fronteira ou o limite exato onde começa um e termina o outro. Levamos nosso ambiente pessoal para dentro do aquário-ambiente, compondo ambientes dentro de ambientes. De forma que a mera presença já causa por si mesma um certo impacto, provoca respostas e ajustamentos contínuos e moventes, geram vibrações e emitem sinais, o que torna isso que chamamos de ‘entorno’ uma configuração com um certo grau de estabilidade, mas que está em constante. Há linhas contínuas, mas também há linhas de fuga. A transformação se dá graças ao trafego das informações, aos encontros e afetos que se produzem dos enfrentamentos entre os seres no espaço e no tempo. Assim, a cada minuto, enquanto estamos aqui respirando neste ambiente, nossos corpos estão produzindo tecido, estão trabalhando intensamente para corpar experiências e produzir tecido, presentificando-se no corpo. Isso nos diz que estamos vivos. A repetição das práticas, a ritualização do gestos e a ciclicidade dos padrões configuram MAPAS internos. E a configuração destes mapas é justamente o nosso processo de subjetivação, o processo da construção constante de quem somos. Portanto, a construção de si tem a ver com as forças e as matrizes geradoras de subjetividade ora atuantes no nicho onde habitamos desde o reduto familiar, que por sua vez se insere num ambiente mais amplo da coletividade (classe social, contexto político, econômico, cultural, natural etc). Mas o ser humano ainda vive como se fosse um ser isolado do entorno, como se pudesse sobreviver independentemente do contexto. Houve quem acreditasse que, refugiando-se numa certa cidade num planalto bem alto, estaria assim a salvo da inundação do “fim do mundo” e que, uma vez a catástrofe tendo se abatido sobre a humanidade, o tal indivíduo (que comprou alguns litros de água e estocou comida para um mês) poderia depois sair de sua toca e seguir sua vida em meio aos escombros. Sim, o corpo certamente irá buscar os meios de sobreviver, mas e quanto a tudo aquilo que configurava uma subjetividade humana, inserida num certo ambiente de códigos e condutas formadoras do humano? Restará o ser humano após o fim do mundo humano? Conhecemos muito pouco sobre a coisa humana que somos. Desse modo, quando falamos em ‘humana harmonia’, o que estamos trazendo à tona são os elementos constituintes de nossa natureza humana, que por sua vez está enraizada nos princípios de toda a Natureza, pautada por leis universais. Não somos ovelhas desgarradas flutuando pelo nada! Essa nossa capacidade de nos adaptar e de nos transformar tem o intuito biológico da manutenção da existência, sendo necessário se ter em conta que a produção de singularidade é também um fator de manutenção da espécie e do sistema. Pois a diversidade gera enriquecimento do ecossistema, abundância de respostas gerando mais respostas, alimentos gerando pluralidade de alimentos, vidas gerando novas vidas, no perpétuo fluir da imanência para benefício do conjunto. Não mais o paradigma da competitividade, mas da cooperação e da afirmação das diferenças como fator de enriquecimento e de expansão da própria vida. Então, quando somos buscadores, quando trafegamos pelos ambientes atentos a como estamos vivenciando cada espaço, como produzimos experiência, como fazemos o que fazemos, fazendo escolhas, desenhando caminhos… Estamos nos apropriando desses procedimentos de criação de nós mesmos, estamos aumentando o fator singularizante! E a Natureza beneficia-se disso pois ela celebra a diversidade, fortalece-se com a produção de diferença, de variadas subjetividades. Qual é a pauta que me conecta ao cosmos? Qual cosmos??? Ao cosmos que me cerca: desde o entorno imediato ao infinito sideral, em camadas e camadas de ambiente. Estamos ainda inseridos numa lógica capitalista que não visa à produção de singularidade, mas à uniformização dos perfis humanos em classes de consumidores, de tal forma que se possa produzir tal linha de produtos para tal perfil de consumidor, numa justa equação entre oferta e demanda, obtendo-se assim a máxima lucratividade. Nesse sentido, a publicidade e todo o discurso midiático – promovendo o bombardeamento de imagens formativas e de certos modelos do agir e do viver – visam suprimir no indivíduo o exercício da busca, do pensar e da criação de suas próprias imagens e mapas desde a experiência singular de si, impedindo-o de afirmar-se sobre suas próprias bases e de discernir quais os seus quereres legítimos. Pois o mercado pauta os desejos ao pautar as subjetividades, visando a uma identificação plena entre o sujeito o objeto que se consome. E faz isso criando um ambiente onde a própria sociedade toma pra si a tarefa de isolar e de hostilizar aquele que ousa agir, pensar, sentir, portar-se ou aparentar-se de maneira ‘inadequada’, segundo o paradigma vigente. Num dado momento, deixar os cabelos ficarem naturalmente brancos com a idade será sinal de desleixo, já no verão seguinte a moda diz que é hora de ‘assumir os brancos’, de modo que já não se pode saber se o que queremos é de fato o que queremos ou se somos compelidos a desejar tal coisa. Como escapar desse perigo? Aí entra a tal da bricolagem: façamos nossa própria montagem e composição de quem somos a partir da escolha e da absorção consciente dos elementos que nos constituem.  Mas, para isso, é necessário também começarmos a gerar um ambiente de aceitação e de respeito às diferenças, que vão muito além da opção religiosa, do poder econômico, da cor da pele ou da condição sexual. Falamos da diferença que se reduz ao indivíduo, único e irrepetível, a uma certa composição humana que jamais poderá ser reproduzida. Falamos em valorizar o humano simplesmente por ser humano, criando condições para que cada um possa viver com dignidade e liberdade, sem constrangimentos de nenhuma espécie. E essa composição individual brota justamente do reencontro com nosso pulsar essencial, com a vitalidade primordial que cada ser carrega em si e que é o grande nutriente da vida, que sustenta o impulso do viver. Pois existir só será uma experiência plena e feliz quando puder mover-se com fluidez, com a liberdade de se reconfigurar a todo instante encontrando a justa adequação entre nós e o  nicho onde habitamos: um ambiente que coopera com nosso existir e que depende de nosso existir para operar adequadamente. O ser busca uma qualidade orgânica e eficiente de operar em conjunto. Pois somos parte da natureza e nosso desafio, como espécie humana, será encontrarmos um modelo humano de existência, em harmonia sócio-ambiental. Nosso objetivo não é manter o ritmo do crescimento econômico acelerado: nossa maior meta é elaborar essa nossa humana-harmonia, pela preservação de nosso planeta e pela dignidade de todos os seres que o habitam.

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