As regiões de ressonância

O nome do trabalho não engana ninguém: é o Caminho do Canto. Pra você chegar neste canto, existe um caminho a ser percorrido. E este caminho implica em várias questões.

Andrea Drigo

Entrevistadoras: Gisele Lavalle e Nathalia Leter

Gisele – Dé, como esta é a última entrevista deste primeiro ciclo, pensei em falarmos sobre alguns conceitos que ainda não abordamos diretamente. Vamos começar falando de “pulso”?

Andrea – O pulso… A gente pode ir pra uma coisa bem básica. Sente agora como está batendo seu coração. Qual o seu pulso? No pulsar da coisa, o tempo do seu coração, o movimento do seu coração… Está acontecendo tudo isso aqui. O coração tem um movimento, ele abre e fecha. E ao mesmo tempo, este movimento de abrir e fechar é um pulso. E ele vai ter um tempo. Ele está batendo 80 vezes por minuto. Se eu estou agitada, vai estar a 100 ou mais vezes. Este é o tempo do pulso que está em movimento. Então, eu penso que é difícil não entender o significado porque a gente está falando de vida. É uma coisa que todo mundo tem e é sempre neste lugar que eu tento trazer a música. Nada de um lugar hermético e sim de uma vivência simples. Coloca a mão no pulso e faz lá a presença com o seu coração. O coração está bombeando, fazendo o sangue ter movimento, sangue arterial, venoso. Então, a gente vai querer falar que o arterial é legal e o venoso é ruim? Trabalha com esta questão do yin e yang o tempo inteiro. E a gente poderia falar sobre consonante e dissonante. Nossa, são milhares de paralelos que a gente pode fazer!

Gisele – E o ritmo?

Andrea – O ritmo está embutido aí. O tempo do coração abrir e fechar… 60, 80. O tempo de batimento mostra em que ritmo você está. Eu estou com o ritmo acelerado? Estou com ritmo calmo? O ritmo em relação a um estado. Nossa, eu estou em um ritmo super bom, a minha vida entrou num ritmo tranquilo.

Gisele – Sempre a partir destes exemplos da vida mesmo…

Andrea – É… da vida.

Gisele – O que você poderia falar sobre o conceito que tem trazido pra gente há um tempo do Poder dos Limites? (referência ao livro “O Poder dos Limites: Harmonias e Proporções na Natureza, Arte e Arquitetura” – György Doczi)

Andrea – O Poder dos Limites é exatamente em relação à liberdade. A liberdade de uma margarida ser uma margarida é exatamente porque ela tem aqueles limites. Se ela passar daqueles limites, ela não é mais uma margarida…ela é uma rosa, ela é não sei o quê. Qual o diapasão dela? Qual a frequência dela? Aquele é poder dos limites. Porque é aquilo que faz ela ser um diapasão vibrando como margarida. Então, o poder do limites é muito importante pra gente ter liberdade. E pra gente saber até onde compete a minha liberdade, até onde compete o meu “estar no Universo”. Aquela história do diapasão: me compete ocupar este espaço, nem mais nem menos, mas me compete ocupá-lo. Porque o nosso grande drama é: ou eu ocupo demais ou ocupo de menos. E é este nosso drama mesmo: o que é ser justo? O que é justiça? Justo não quer dizer ‘apertado’. Ser justo quer dizer que ele está JUSTO naquele espaço. É um espaço justo pra mim, um espaço que me compete. Quanto custa isso? Ah, é X porque isso é justo pra mim. Então, está tudo bem.

Gisele – Em algum trabalho você comentou o quanto a presença do tônus pode diferenciar a liberdade da libertinagem.

Andrea – A liberdade é de acordo com o que você pode. Então, a gente vê na vida: nossa, aquela pessoa tem uma liberdade, né? A gente vai olhar pra vida dela e é uma pessoa que tem muito tônus, muita disciplina. A pessoa que criou a sua liberdade, né? Estou focando mais na pessoa que fez a vida com as próprias mãos. Mas o que ela tem até ali é liberdade, não é limitação. Então, você tem uma liberdade até aqui. Isso é muito importante porque é bem o que a gente tem. A gente tem liberdade até um certo ponto. Depois dali a gente não tem nem condições nem energia pra ir além e se a gente quer ir de qualquer jeito, aí que eu chamo de libertinagem. Mesmo você sabendo que não tem condições, você vai…e vai pela loucura, né? “Ah, tô a fim de dar um chute no piano. Por que não pode?”.

Gisele – E o que a gente pode falar sobre afinação?

Andrea – O que é afinação? Voltamos pro diapasão, né? A gente pode sempre estar buscando ali. Estar afinado é você estar na sua frequência. Quando você está na sua frequência, você está afins na ação. Eu estou fazendo uma ação que é afins com a minha natureza. É a natureza da minha natureza. Eu canto. Eu estou afins na minha ação? É a natureza da minha natureza. A árvore…ela é árvore, então, ela está afins na ação dela. Uma pessoa vem procurar o trabalho: “ai, eu sou desafinada!”. Às vezes, uma pessoa está super afinada na voz…vamos dizer assim…mas é uma afinação casca. Ela faz aquela afinação só pra esconder uma desafinação profunda. E tem muita gente que vem com uma desafinação na casca e, profundamente, ela está bem encontrada. Então, a gente não pode acreditar no que a gente ouve de cara.

Gisele – Mas, de cara, as pessoas que buscam o trabalho do Caminho querem afinar a voz especificamente para o canto, né? E ao longo do processo, vai sacando outras coisas…

Andrea – É. E cada vez está mais rápido a pessoa perceber o que é o canto. O canto é sua ação na vida. O que é você ser cantor? Você ser cantor implica em tudo isso. Corpo-diapasão, entender o que é estar afins na ação, entender que você tem uma frequência, perceber que você tem que ter uma abertura de consciência para saber que você está no R2, perceber que tem estes movimentos entre 1 e 3, sem se apegar a um ou a outro, que a gente vive em um processo de eterna impermanência. Então, ela começa a perceber que este é um caminho mesmo. O nome do trabalho não engana ninguém: é o Caminho do Canto. Pra você chegar neste canto, existe um caminho a ser percorrido. E este caminho implica em várias questões.

Gisele – É um treinamento.

Andrea – É um treinamento e eu não vou dar o diploma. Quem vai dar o diploma é você mesmo. Eu não tenho condições de saber se está tudo ok ali. E é muito interessante porque na hora em que eu falo: me integrei, estou discipleno ou de si pleno ou pleno, você está diplomado. Não sou eu que tenho que dar o diploma pra você.

Gisele – E isso me lembra muito o conceito do amador, né? A pessoa ganha o diploma quando se torna amador?

Andrea – É. Na hora em que você sai do profissional, perde aquele conceito do profissional, do que é cantar bem, do ser um cantor e começa a entrar nesta sintonia do amador…aí, você virou um cantor. Um cantor tem que amar. Ele tem que ter este coração de amador. Você ama aquilo, ou seja, você se ama. Você já está preenchido, não tem falta.

Gisele – E isso também se conecta ao artesão.

Andrea – Exatamente. O amador foi colocado pra gente como uma coisa menor. Você não é profissional, então, você é um amador. E não era assim. O amador é aquele que faz o trabalho com os músculos, com os ossos, com o tempo de presença. Ele transpira. Ele lê. Como o Barthes fala: que Beethoven vem inaugurar um novo momento. Que Beethoven nem é pra ser ouvido, nem pra ser tocado, ele é pra ser lido. Você vai lá e vai ler e vai transcriar aquela obra. Você vai trazer pra você, pro seu corpo-diapasão, pra sua realidade. E é nesse lugar que eu vejo o amador. Ele vai e se apropria de uma obra e vai colocar o que tem dele naquela obra. Eu não vejo que ele é maior ou menor do que um criador. Se é que existe um criador, né? Eu acho que existem pessoas que inauguram algumas coisas no sentido de: já estava ali, a gente não viu, ela foi ali e tirou o pano, inaugurou um lugar, mas, que já existe.

Gisele – Dé, a gente falou um pouco já sobre seu trabalho no Caminho, passou pelo Sucuridan e eu fiquei com vontade de que você falasse sobre o Labyrithus.

Andrea – O Labyrinthus é o corpo-diapasão Andrea que estava querendo se encaixar em outros lugares. Que queria se encaixar em uma cena cultural inexistente neste momento, então ficava sofrendo só pelas ações. Eu não estava afins na minha ação. Porque o Labyrinthus é a minha questão presencial, a minha obra sendo executada. Porque o Caminho do Canto é a linguagem, o Labyrinthus é a obra, minha obra musical, eu-compositora. Então, eu estava querendo entrar em uns espaços…a gente tem aqui o SESC, por exemplo…e não tinha espaço pra minha música. “Ai, a mulher violonista que ainda não tem o mesmo espaço que…” e com a maturidade, esta minha camada se afinou e falou: espera! Então, faz você um projeto aonde você caiba, que seja seu espaço de ressonância e com isso você vai reverberar vários outros corpos que também estão esperando…eu inaugurei só um espaço. Eu não criei isso. Eu inaugurei uma coisa que estava em potencial. E o Labyrinthus vem de uma desafinação muito grande que estava acontecendo comigo porque eu estava esperando que outros corpos, outras frequências, que não são afins com a minha, me afinassem. É impossível! Então, é um projeto onde eu trago música acústica, onde não existe quem toca e quem ouve, existe um acontecimento ali porque quem está ouvindo está fazendo em tempo real o que eu estou tocando, é um espaço onde as pessoas percebem a sonoridade tanto quanto o som. Mas eu entendo que precisou de anos de Caminho do Canto pra que criasse mesmo esta linguagem pra que pudesse ouvir deste jeito. Então, é o tempo da coisa.

Gisele – O tempo do tempo.

Andrea – Dá tempo ao tempo…dê tempo ao tempo. E, às vezes, a gente quer a coisa mais rápida porque a gente já vislumbra algo, mas, não existiam as pessoas. O Paul Klee, se eu não me engano, foi ele que falou que não existiam as pessoas ainda pra sua obra. Estas pessoas ainda vão existir. (canta) “Chegando assim, mil dias antes de te conhecer…” Foi mais ou menos o que eu fiquei sofrendo este tempo inteiro, estes anos todos, de me sentir inadequada porque na verdade eu não tinha ainda um público que pudesse ouvir…porque eu tinha que inaugurar este lugar.

Gisele – Que louco, né? Quando a gente começou a falar do seu caminho na criação da linguagem, você falou muito sobre inadequação também. E é interessante porque primeiro você encontrou um público que comprou sua ideia na linguagem.

Andrea – Porque antes teve que formar este público mesmo. Como você falou: uma turma teve que comprar minha ideia de: vamos ouvir de um outro jeito. É verdade.

Gisele – E aí começa a reverberar sua música também pra pessoas que não são ainda peregrinos e, de alguma forma, acabam virando…

Andrea – Exatamente. E você sabe que eu li em algum lugar…que tem a ver com física quântica…por exemplo, eu sou sua amiga, tá? Então, eu fumo. Você tem 50% de chance de fumar. Uma amiga sua, que não me conhece, tem 20%. Uma amiga da amiga dela, que não te conhece, vai ter 10%. Com isso eu quero dizer que na hora que a gente cria uma linguagem, e eu fiz, você fez o trabalho, então, as pessoas mais próximas a você já tem 50% deste ouvido. Imagina nestes anos todos…aí, você começa a ter um público: “nossa, parece que eu entendo isso!”. Entende porque já foi sendo disseminado.

Gisele – Você tem feito um trabalho de formação de público.

Andrea – De público e um trabalho amador porque foi um trabalho braçal, artesanal.

Gisele – Sim. E o Humana Harmonia? Como ele entra na sua vida?

Andrea – O Humana Harmonia vem deste mesmo lugar de inadequação. Também precisei formar público para entender a música antes da música. Antes desta música que tem nome, destes conceitos de notas. Entender as notas antes de que as notas tinham notas…porque eram só frequências. Entender que esta música já existe no nosso corpo, na nossa pulsação, nas nossas moléculas. O Caminho do Canto é esta formação do cantar, do cantor. O Labyrinthus é a formação de que você é um ouvinte criador, que não é passivo, que está percebendo que está sendo remexido junto com quem tá propondo isso. Quem está propondo é só um detonador. O músico naquele momento é só um detonador. Ele não é O músico, O deus. E se a gente pensar em uma tríade, o Humana Harmonia é o terceiro lugar deste pilar porque é onde faz a coisa ser conceitualizada. Como se fossem as três regiões. O Labyrinthus seria o R2…estou agora pirando, tá? Labyrinthus seria R2, Caminho seria R1, a base, onde forma, e o Humana o R3, que é o criativo, em que a gente vai usar todo este mecanismo de conceitos, de organização, de embasamento pra que a pessoa comece a ler partitura, comece a entender harmonia musical a partir destes conceitos…

Gisele – …e a propagar ainda mais tudo isso também. É inevitável que se traga, que se leve…que se troquem os conceitos. Não imitando, mas já reverberando em um outro lugar porque são outros corpos.

Andrea – São outros diapasões. E é aí que a linguagem se torna viva. Na hora em que você vai, recebe e transmuta. Claro, tem o núcleo ali, mas o jeito que você vai passar é quem você é, né? Como reverberou na sua vida.

Gisele – Sabe do que eu me lembrei agora? Há uns 2 ou 3 anos…eu até te falei na época…quando eu tive aquele sonho com a Meredith Monk…é o Labyrinthus, né? A gente estava escrevendo o projeto do Sucuridan pro SESC na época. E a Meredith falava: “não, fala pra Andrea que não é pra ela ir pro palco e as pessoas ficarem na plateia. É outra coisa”. Lembra que ela me mandou um twitter neste sonho? No twitter ela falava: “Quando a fé é pouca, trabalhar já é o bastante”. Ela falava que fazer o show era legal, mas, que tinha que ser outra coisa. E aí, quando eu estava no primeiro Labyrinthus, eu pensei: “ah, era disso que tratava o sonho!”. Ainda mais porque a mensagem veio pela Meredith que te avisou que você era uma pesquisadora.

Andrea – Sim…que me tirou de um labirinto. Porque quando ela chega e fala que eu sou uma pesquisadora…pronto, né? Porque eu também queria me encaixar. Então, aí, também tem a função dos mestres, né? Aonde um mestre é um mestre? Na hora em que ele vê que diapasão é você e só te orienta. Ela não vai poder fazer por você, mas te orienta. Ele vai poder dizer: sua frequência é mais por aqui…e foi isso que eu recebi…e perfeito: porque eu estou me sentindo afinada. Estou afins na minha ação. Ai, que lembrança boa este sonho!

Axé Odara!

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