Compondo com as forças da Natureza

Eu posso trazer uma atmosfera, mas quem vai criar toda aquela ideia, quem vai completar a imagem é a pessoa. Eu não posso dar uma imagem completa porque aí eu tiro a liberdade do outro. E o meu trabalho é de liberdade. Então, eu sempre trago impressões.

Andrea Drigo

Entrevistadoras – Gisele Lavalle e Nathalia Leter

Gisele – Dé, vamos começar hoje falando sobre o Sucuridan? Surgiu primeiro o tema, o repertório…como foi o processo de criação deste trabalho?

Andrea – Na verdade, ele começou quando eu iniciei no candomblé. Eu entrei em contato com o meu orixá e com outros orixás. Comecei a entrar em contato realmente com as forças da natureza. Eu sempre ouvia falar sobre forças da natureza, mas, pra mim, até então, era a música do Paulo César Pinheiro…eram as letras de música. E aí eu começo a entrar em contato com as forcas da natureza nos trabalhos, nas giras do candomblé, que a gente chama de xirê. E eu ainda era alabê, a pessoa que toca o atabaque. Eu sentia cada ritmo…cada orixá tem um ritmo e cada ritmo propicia uma dança, uma qualidade de energia. Do fogo, do vento, do trovão, das águas, da mata, das folhas. Aí, eu fui sentindo novamente através do corpo…no corpo, mas, ainda ligado ao espírito, ao transe…sentindo realmente as forças do natureza. Aí, começa o Sucuridan. Tanto que Sucuridan é sucuri, minha serpente, que é a qualidade do meu orixá, Oxumaré. Cada pessoa vai ter uma qualidade de serpente. A minha serpente é a sucuri. E daí começaram a nascer as músicas com esta pegada das forças da natureza (canta algumas músicas de Sucuridan). Eu falo o tempo inteiro das forças da natureza. Eu vi que isso não era história, não, era real. A natureza conversa com você se você se abre pra ela. Então, quer dizer, o Sucuridan nasce quase dez anos antes da realização dele. As músicas foram sendo compostas ao longo deste tempo.

Gisele – E como foi a primeira experiência de tocar o Sucuridan pra um público que, em sua maioria, te conhecia mais nos encontros do Caminho do Canto, em outro “papel”?

Andrea – Foi incrível porque eu tinha uma preocupação: qual vai ser a receptividade? Porque eu em aula era uma história, trabalhava com uma determinada energia, mas, o meu show e as minhas apresentações trabalham com outras energias. E eu ficava: como eles vão receber? E foi incrível! Foi uma sensação de: ah, você pertence a este mundo! Porque no Caminho do Canto a gente trabalha com coisas muito sutis. Às vezes, a pessoa tem a impressão de que eu saio do trabalho e viro fumaça. E no Sucuridan, elas viram que a minha voz rasga, que o meu corpo está presente e que eu aguento a experiência.

Nathalia – Por um outro lado eu vejo uma coisa em comum no trabalho criativo e nas aulas que é de não falar tudo. Só dar a atmosfera e deixar que o entendimento se complete com quem está recebendo a mensagem.

Andrea – Mas aí já vem a minha formação do Zen…eu acredito que se você preencher tudo, você está impondo. Eu posso trazer uma atmosfera, mas quem vai criar toda aquela ideia, quem vai completar a imagem é a pessoa. Eu não posso dar uma imagem completa porque aí eu tiro a liberdade do outro. E o meu trabalho é de liberdade. Então, eu sempre trago impressões. Quando eu canto: “eu vi…” é muito aberto. Eu não vou contando uma historinha com começo, meio e fim. A minha história não é fechar, minha história é abrir sempre. Abrir e dar liberdade. E nas apresentações, eu sempre tive esse feedback. Cada um pode ir pra onde quiser. Isso pra mim é o que eu tenho com o Tao. É como se ele te desse as pistas, mas é você que vai tendo o entendimento de você. Ele não é de cima pra baixo. Só quem sabe do seu caminho é você, é o seu coração. O Caminho do Canto é isso: a gente abre os espaços, informa que existem regiões, mas, cada um tem uma região, cada voz é uma. A gente não trabalha com separação de naipes. A gente transita pelas regiões. A gente acredita que quando você chega no máximo do seu grave, depois vai ter a sonoridade. Se você continuar mantendo a sua intenção, você vai continuar realizando uma frequência, só que agora inaudível. Então, nunca fecha. Mas, ao mesmo tempo que nunca fecha, sempre tem uma borda pra você perceber aonde você está.

Nathalia – Tem a ver com o que você fala nos encontros, sobre a molécula de liberdade. Fala um pouquinho sobre isso.

Andrea – No canto a gente sente isso. A gente precisa ter um rigor pra poder manter o tônus, só que este tônus, ele precisa ter um pulso. Então, você vai R3-R1, R1-R3, R3-R1, mas na passagem de um pro outro, na hora em que eles se encontram, quando o 1 vai pro 3 e o 3 vai pro 1, neste momento breve de encontro, é o momento de liberdade, que é a molécula de liberdade. Que eu comento: uma vez que você tem uma molécula de liberdade, já é liberdade. Por que a gente não consegue uma liberdade total? Porque a gente não tem tônus pra isso. Pra uma pessoa ter uma liberdade…se é que existe, eu não sei, nunca experimentei isso aqui…mas você precisa ter muito rigor pra ter esta liberdade. Muita gente mistura liberdade com libertinagem, né? E é muito diferente! Fazer o que eu quero! A gente não faz o que a gente quer. É um conjunto de forças. Então, nesta passagem do 1 pro 3, neste suspiro de liberdade, neste quinhão de liberdade, é o exercício pra daqui a pouco…eu sou muito afirmativa neste sentido! Pra daqui a pouco, a gente trabalhando com isso, a gente vai, cada um no seu tempo, ganhando tônus pra cada vez mais ter mais liberdade sem este perigo da libertinagem, né? De perder rigor, de perder ética.

Nathalia – E é desde pequena que você tem esta proximidade, esta relação com as forças da natureza?

Andrea – Esta abertura…sim, desde criança a natureza conversou comigo. Eu devia ter uns seis anos quando eu comecei a tocar violão e eu tinha um Velotrol Tonka. E todos os dias no período da tarde, eu pegava a Tonka e eu mudava de casa, eu ia embora. Então, no meu mundo eu punha as coisas que mais me interessavam, o violão ia junto, e eu ia pedalando embora. Chegava atrás da casa, no quintal, onde ninguém ia. Eu ficava ali por horas…na minha cabeça de criança eram horas. Podiam ser 15 minutos, mas pra criança era uma eternidade e aí eu sabia que ali eu tinha um encontro marcado com a Mônica. Este muro se abria e a Mônica vinha. Porque ela era baixinha, gordinha, então, a minha ideia é que aquela imagem era a da Mônica. E ela me ensinava a tocar umas coisas diferentes. Eu chegava da viagem e mostrava pro meu pai as coisas. E ele falava: “mas, como você aprendeu isso?”. E eu falava: ah, foi a Mônica. Então, desde muito cedo eu vivia às voltas com a natureza mesmo me ensinando, me instruindo, na verdade.

Nathalia – E você ainda foi a cambone da sua mãe, né?

Andrea – Muito cedo eu comecei a ajudar a minha mãe quando vinham as entidades nela. Eu ia lá, pegava o charuto. Conversava com uma pessoa que era a minha mãe, mas, já não era mais. Então, esta coisa da pessoa ser sua mãe e não ser mais era muito tranquilo, muito natural. Esta coisa de que na mesma pessoa pode trafegar várias outras pessoas. Então, quer dizer, em um mesmo corpo, tem várias camadas. Então, com certeza, pra mim, veio esta coisa de eu fluir. Então, eles não tinham problema algum. Meu pai sacou logo cedo que tinha algo acontecendo. Então, ele perguntava: “e como é esta pessoa? O que ela falava?”. E tinha uma coisa que era contundente: o fato é que eu vinha com uma música, o fato é que eu estava evoluindo demais no instrumento. Isso era um fato, não era uma alucinação. Eu vinha com o instrumento, com uma tal coisa. Quem me ensinou a afinar o instrumento foi a Mônica. Um belo dia eu cheguei e falei pro meu pai: eu não preciso mais que você afine. A Mônica me ensinou. Ele falou: “então, afina”. Eu fui lá e afinei. Ele achou ótimo este contato com a Mônica! Vai por aí, que está bom!

Gisele – Como era a relação dos seus pais com esta criança?

Andrea – Meus pais eram muito doidos, na verdade. Eu sou a filha mais nova e minhas irmãs davam muito trabalho pra eles, então, isso já me liberava um pouco. E eles também tinham esta história com a umbanda. E com certeza, este lance das forças da natureza veio da minha mãe. Porque pra ela era assim: tá com tal coisa, tem que tomar banho de cachoeira. Tá com tal outra, banho de mar. Quebrou a televisão, passa arruda. Quer dizer, no quintal da minha casa, nascia uma planta que curava. Então, esta relação que a natureza cura, que a natureza dá conta, veio dali. Tá com dor de tal coisa, problema na bexiga, toma chá de quebra-pedra. E tinha quebra-pedra ali no meu quintal. Mau olhado? Pega espada de São Jorge. Então, eu fui aprendendo que a natureza tinha tudo pra mim. Tudo que eu precisasse na vida, eu ia resolver com a natureza.

Gisele – Dé, você sempre fala da sua criança. E a Andrea adolescente?

Andrea – Eu estava até comentando com a Nathalia um dia desses…eu sou uma coisa só. Se você me visse criança, adolescente ou agora…são as mesmas questões. Eu me lembro que quando eu era criança, na casa das margaridas, minha mãe estava brigando com a minha tia porque ela falou mal da minha mãe. Eu estava ouvindo aquilo e comecei a questionar: mas, por que minha mãe está brigando com a minha tia? Perguntei pra minha mãe e ela falou: “ah, porque ela falou mal de mim”. E aquilo ficou tão forte: quem é o mim, que está dentro dela, que se sentiu ofendido? Quem mora dentro da gente que se sente ofendido? Eu já tinha uns questionamentos meio doidos, que são os mesmos que eu tenho até hoje. Então, adolescente, nunca usei drogas, nunca fumei, não tive piti. Meus pais nunca tiveram problema comigo. E detalhe: comecei a trabalhar com 12 anos de idade. Antigamente, as pessoas falavam: ah, comecei a trabalhar, arrumei um emprego, estou com 20 anos. Eu pensava: 20 anos? Já tá velho! Porque eu achava que com 12 anos eu já estava bem pra trabalhar. Comecei a dar aula de violão erudito com 12 anos. Era quase infância.

Nathalia – Pensando em sobrevivência, né?

Andrea – Pensando primeiro em trabalhar e também tinha a sobrevivência.

 Axé Odara!

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