Camadas de Tempo

Quando eu digo que os cantadores trazem algo pra mim, e não é imitação, aquilo é quântico. Trago camadas de tempo, eu abro camadas de tempos através da minha voz.

Andrea Drigo

 

Entrevistadoras – Gisele Lavalle e Nathalia Leter

Nathalia – Conta um pouco dos seus primeiros trabalhos com a Cia. Oito e como eles se relacionaram com a sua pesquisa vocal?

Andrea – O tema da ancestralidade, que era uma coisa que já fazia parte do meu trabalho, mas em um outro plano, veio com muita força e eu consegui colocar a voz de tudo que eu sentia, que eu intuía e que vinha nos domínios do espiritual, da mediunidade. Eu consegui fazer a passagem e trazer pro corpo. Isso falando de um modo geral do nosso trabalho em parceria. Bom, bem antes do meu encontro com a Oito, eu estava em São Sebastião trabalhando em uma ONG, onde eu fazia registros de cantos caiçaras, de cirandas, caranguejos, gêneros de músicas, folias de reis, canto do divino. Havia uns senhorzinhos que tocavam e há anos eles não se encontravam mais, então, este trabalho era um processo de resgate desta cultura. E com isso eu fui tomando contato com estes cantadores caiçaras, que cantavam de uma forma bem rudimentar. Rudimentar para os meus ouvidos na época, de uma pessoa que vem de uma cultura europeia. Foi um choque! A princípio eu não entendi nada…o que é isso? Que canto é este? Era gutural, quase sem articulação. Foi um trabalho incrível! E quando eu entro no Nova Dança, eles também estavam em um trabalho de pesquisa na Ilha do Cardoso com o fandango, que é uma manifestação de música que trabalha em cima do coletivo. Uma música que nasce na hora do trabalho…vamos fazer juntos uma casa! E ao final deste trabalho de construção do coletivo, à noite, eles fazem um fandango. É bonito isso porque ele nasce por conta do coletivo. E depois da minha experiência em São Sebastião, eu me vejo mais uma vez envolvida com caiçara, com o mar e com os cantadores. Mas neste momento, com a Oito, eu já estou mais amadurecida e eu começo a buscar em mim o canto gutural deles. Eu comecei a entrar em estado de cantador, como os caiçaras, trazendo pelo corpo dos bailarinos. Eu plasmava aquele corpo deles em mim, trazia mais na minha laringe e aí eu fui encontrando algo. Na hora em que eu achei a voz deles na minha, abriu-se um portal. Você faz um acesso de todos os conteúdos, da egrégora que está naquela voz. Eu acessei a partir daí vários códigos, informações, impressões que eram minhas e estavam dispersas nos meus registros.

Nathalia – E isso não tem nada a ver com imitação, né?

Andrea – Não. Imitação é quando você faz igual ao outro. No meu caso, eu via o que o outro fazia e trazia pra minha experiência. Eu não fazia igual até porque eu nem conseguiria fazer. Imitação você fica do lado de fora, né? Aqui você pega de fora e traz pra dentro, acessa os mesmos conteúdos, como se fosse a partir de uma senha. Aí, abriram-se os registros absurdos de ancestralidade também. A Lu Favoreto me chamou para este trabalho do fandango por causa da rabeca, que eu trabalhei com os senhorzinhos lá em São Sebastião. Bom, e nesta pesquisa eu também comecei a tocar a macheta, que parece um violãozão, e a machetinha, que parece um cavaquinho. E pela impressão da machetinha, eu comecei também a encontrar outras vozes dentro de mim.

Nathalia – Andrea, como multiinstrumentista, como é que você constroi sua relação com os vários instrumentos?

Andrea – Cada instrumento traz uma egrégora, uma borda, e como eu tenho esta facilidade de entrar em “estado de”, eu entro em estado de cada instrumento. Há quantos séculos aquele instrumento já vem sendo? Quantas pessoas já passaram por ali? Quantas mentes? Quantos corações? Quantos sonhos em cima daquele timbre? Parece que na hora em que eu entro, estes códigos se abrem e eu começo a dançar dentro desta história. Aí eu fico com uma facilidade muito grande de chegar no instrumento porque eu me abro pra ele. Eu não quero dominar o instrumento, eu quero compartilhar com ele a história dele. Então, todas as vezes em que eu pego um instrumento novo pra tocar, é sempre ele que traz uma música pra mim. Como se ele estivesse ali com uma música gravada. E sempre foi assim. Em todo instrumento que eu pego, rapidamente, já vem uma música.

Nathalia – Qual foi a experiência que você teve com o som mais tocante?

Andrea – Agora que você falou me veio na cabeça uma história que eu nunca mais tinha me lembrado. Em São Sebastião eu tinha comprado um violão de aço. O meu primeiro CD, A Dança, foi todo feito com violão de aço. E era uma experiência muito nova pra mim. E eu falava: gozado, eu sinto que tem fogo, o aço é um elemento fogo. E um dia eu estava tocando…fiquei muito tempo tocando aquela música e eu falava: gozado, eu sinto, fogo, fogo. E uma hora, da gota do violão saiu fogo. Como a gente faz com o fogo? Ele vem e a gente, no automático, já tira a mão. E tocando eu tirei a mão porque o fogo ia me queimar. Aí, ficou aquela coisa: teve fogo? Não teve fogo? O que aconteceu aqui? Esta foi uma experiência muito forte que eu tive através do som, de gerar mesmo alguma coisa. E foi incrível porque não foi racional: eu estou tocando violão, portanto não tem como sair fogo. Não! Na hora em que veio o fogo, eu tratei como se fosse o fogo mesmo. Eu tive este impulso, este instinto de tirar a mão para este fogo não me queimar.

Gisele – Você sempre fala no trabalho vocal para incluirmos o espaço e todos seus elementos na experiência do canto, sobre os ouvidos quânticos… em que momento você se aproximou da física quântica?

Andrea – Foi logo na minha formação, na Universidade, quando saiu o Tao da Física, do Capra. O Capra incluiu a física quântica…ela é ciência e também é espiritualidade. Muitas coisas que a espiritualidade dizia, e não eram comprovadas, eram tidas como místicas. Veio a física quântica e comprovou que era isso mesmo. Mesmo no Zen que fala da impermanência, a física quântica veio mostrar pra gente que ela é a fundamental, é a tônica da física quântica. Aonde estão as partículas? São probabilidades de se colapsar um evento em tal lugar. Você não sabe. São probabilidades. Isso veio muito no que eu já sentia na minha voz e nos ouvidos quânticos. Espera um pouco. Os meus ouvidos não ficam só na minha cabeça, nas minhas orelhas. Os meus olhos não ficam só aqui. Porque a pedagogia divina colocou tudo na cabeça: eu sinto cheio com o nariz, eu como com a boca, eu vejo com os olhos, eu ouço com os ouvidos…tudo aqui no R3, né? Mas eu sentia que eu ouvia com todo o corpo e pra além do corpo. Eu ouvia em todas as camadas que tem a ver com o Sucuridan. Ouvir através das paredes…estas paredes são as camadas. A gente também pode pensar em camadas de tempo. Quando eu digo que os cantadores trazem algo pra mim, e não é imitação, aquilo é quântico. Trago camadas de tempo, eu abro camadas de tempos através da minha voz.

Axé Odara!

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