Um corpo para o canto

O que possibilita o corpo ir um pouco além é a voz.

Andrea Drigo

Entrevistadoras: Gisele Lavalle e Nathalia Leter

Gisele – Você pode falar um pouco da diferença entre o cantor e o cantador, que você citou em um dos nossos encontros? Acho que aí já temos vários conceitos importantes do Caminho.

Andrea – O cantor e o cantador estão juntos. A questão é que geralmente se separa os dois. Quem está cantando? Quem canta em mim é o cantador. Quando apenas o cantor está cantando parece que tudo é uma questão pessoal, como se fosse sempre sobre sua própria história. O cantador está um pouquinho mais afastado e sabe que ele é uma passagem para uma emoção e não a própria emoção. O cantor e o cantador estão juntos, como a lua e o luar, o som e a sonoridade. O que é um verdadeiro cantor? O cantor e o cantador integrados.

Gisele – E qual a relação ou a influência deste conceito cantor-cantador com o seu trabalho na Palas Athena e na Cia. Oito Nova Dança?

Andrea – Dá pra gente ligar esta história do cantor-cantador com o processo do corpo porque quando a gente começa a ganhar corpo, você deixa de ficar entregue ao corpo, de se apoiar no corpo. Você ganha um corpo. Como se tivesse também o corpo e o corpador. Antes eu tinha um corpo, como todos nós temos. Quando eu começo a ganhar consciência deste corpo que eu tenho, eu vou ganhando um corpador. Alguém que encorpora, toma o corpo. No Nova Dança eu encontro o corpo. Quando eu conheci a Palas Athena, eu já tinha um trabalho do espírito e iniciei um trabalho com a minha mente na meditação, na organização, no acontecimento presente. Então, se fechou aí o processo de corpo-mente-espírito.

Gisele – Como foi seu trabalho de diretora musical em um grupo de bailarinos?

Andrea – Este processo foi incrível porque antes eu me sentia sendo só a cantadora, nem a cantora. Lá eu era a cantadora e eles me mostravam através do corpo deles o que eu fazia, o que eu provocava. Eles eram os cantores. Eles sofriam a ação do que eu expressava como cantadora. Eu fui percebendo como é importante você ter consciência do fazer voz, do fazer canto. Como a gente em tempo real pode trabalhar com esta matéria que é o som, que parece ser tão diluída, efêmera, impalpável, mas, na verdade, ela é uma matéria completa. É muito diferente você ter um corpo para colocar esta matéria, uma mente para equilibrar e um espírito pra saber como que eu uso isso tudo, por que estou usando esta voz. Esta é a função do espírito. Por que eu estou usando esta voz? Qual a minha missão com esta voz? Aonde uma voz pode levar? E a mente é você conseguir ter um equilíbrio…ela é o entre o corpo e o espírito. Porque, às vezes, o corpo quer a potência ou ele é amorfo, largado. E a mente dá a medida. Nem este tudo nem este nada. A mente organizada leva sua voz para o caminho do meio, que é entre o corpo e o espírito.

Nathalia – Antes de você encontrar o Nova Dança, você tinha uma pegada erudita e estava descobrindo a música oriental. Com a Cia. Oito começa mesmo um lugar de entrar no som como uma pesquisa. Como foi este processo de desconstrução?

Andrea – Neste trabalho com a companhia a gente tinha as propostas de trazer depoimentos e eu vinha de uma história da música erudita, em que tudo era muito aéreo. E o mesmo acontecia com a música oriental, a música indiana, o canto indiano e a sitar, propostas com as quais eu estava muito envolvida. E no trabalho com o Nova Dança vem o corpo. Na hora em que o corpo veio, minha voz foi pra dentro deste corpo e ela veio primitiva. Todo aquele refinamento que eu tinha no canto lírico veio, desceu com tudo e foi para o primeiro canto. Neste sentido de primitivo. Veio o primeiro canto, o primeiro grito, o primeiro choro. Na verdade, eu não chorei quando eu nasci, eu sorri! Mas, o primeiro som deste sorriso. Nesta pesquisa através do corpo, que começou a trazer as minhas vozes a palo seco, eu começo a transitar entre o corpo e o espírito.

Nathalia – E foi suave esta passagem?

Andrea – Não! Não! Foi um parto! Porque foi como se eu tivesse que nascer outra vez só que com toda a consciência da dor do nascer. Trazer esta voz pra mim, ouvir este canto, esta voz primal, esta desafinação…porque antes minha voz estava muito afinada, harmoniosa, mais sutil. E viver na carne a desafinação, o não saber para onde ir, além de incluir o que eu achava que era pecado até, como o ruído, o sujo, a terra…o que eu chamei de desafinação. Mas era uma desafinação que me levava a uma afinação mais interna, mais calcada na terra, também na transitoriedade e veio muito forte a morte. Vi que este corpo é perecível porque na hora em que você encarna no corpo, a voz no corpo, você vive a dor da humanidade. Você é a humanidade e antes eu sentia que eu ficava um pouco fora deste humano. Neste contato eu vim pro humano, eu vim pro corpo, eu vim pra dor pra fazer a passagem mesmo desta voz que estava tão etérea pra ganhar um outro corpo.

Nathalia – E isso tem a ver com a sua ancestralidade?

Andrea – O encontro com a minha ancestralidade, o encontro espiritual, foi antes. Neste momento em que eu faço meu encontro com o corpo eu consigo chegar até a minha ancestralidade via corpo. Isso ficou claro nos próximos trabalhos que eu fui compondo. Eu comecei conseguir a falar e neste momento eu consegui começar a falar letras porque antes eram vocalizes, vogais. Eu não conseguia fazer a liga que são as consoantes, que dão sentido. Eu ficava nas vogais, no etérico e quando eu vim pro corpo, eu trouxe a consoante, a palavra e, consequentemente, a linguagem. É um corpo que sente, que fala de sonhos…

Gisele – Você disse que os bailarinos da Cia. Oito levavam depoimentos durante o processo de criação. Antes da sua entrada, eles costumavam levar estes depoimentos apenas a partir do corpo?

Andrea – Eles tinham a palavra, mas, não tinham o som. Era a palavra, mas como se ela não estivesse associada ao som, às camadas, frequências e alturas. Foi uma troca bem interessante. Eu tinha deslocamentos de sons, mas eu não tinha o corpo pra colocar este som dentro. Eles tinham o corpo, mas não conseguiam deslocar além do corpo, que aí já é um domínio da voz, né? O que possibilita o corpo ir um pouco além é a voz.

Axé Odara!

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