Naturezas compartilhadas

Da mesma forma que eu fui ter confiança no trabalho a partir do olhar do outro, eu também fui percebendo que podia abrir as minhas coisas íntimas a partir do que o outro foi abrindo pra mim.

Andrea Drigo

Entrevistadoras: Gisele Lavalle e Nathalia Leter

Ilustrações: Andrea Drigo

Nathalia – Andrea, você é de 1968. Isso é muito interessante porque, mesmo sendo criança, você captou muito da atmosfera daquele momento, auge da contracultura… E tudo isso que estamos falando nestas entrevistas tem a ver com o discurso contracultural. Conta como foi esta atmosfera que te formou e que talvez tenha te dado força para sustentar esta travessia, que até hoje é rebelde.

Andrea – Acho que tem tudo a ver…na hora em que eu venho ao mundo, o primeiro ar que eu respiro está repleto desta atmosfera, destes nutrientes. Este é o ambiente que eu respirei. Não tem como não trazer isso comigo. Eu era muito criança, mas, eu sentia o que estava acontecendo. Na escola tinha que entrar com o bottom da bandeira do Brasil e você não podia entrar sem aquilo. E não só isso, se você esquecia, ainda ouvia: “como você esqueceu? Então, você não é patriota”. Tinha um clima estabelecido ali. Antes de entrar na sala de aula, sempre tinha o hino nacional. Todo dia a bandeira hasteada, o hino e as crianças cantando: “ouviram do Ipiranga…”. É uma geração que sabe mesmo o hino porque a gente tinha que cantar todos os dias. Aí chegou um dia em que eu falei: “espera um pouco, já que eu tenho que cantar, eu vou cantar!”. Aí, eu fui e comecei a plena potência: “OUVIRAM DO IPIRANGA…”! Só que, então, eu sinto uma mão puxando minha orelha: “O que você tá fazendo? Como você pode brincar com o hino deste jeito?”. Era a inspetora, me repreendendo. Levou-me pro fim da fila. Quer dizer, a primeira vez em que eu fui me colocar mesmo, com verdade, com potência, coisa e tal, veio aquela mão da inspetora, da figura que toma conta. O que ela quis dizer naquela hora? “Não, escuta…aqui não é pra você estar viva, mostrar sua voz, aqui é pra você se anular”. Este foi o primeiro momento de desconforto que eu senti. Eu falei: “a minha música não vai ter cabimento porque eu sinto as coisas”. Isso foi muito forte. Nas outras vezes em que eu tive que cantar, eu pensei: “se eu cantar com vida, aquela mulher vai puxar a minha orelha daquele jeito e vai doer”. Doeu! Olha só onde eu fiquei. Então, eu tenho que me conformar por conta do medo. Eu não sei o que aconteceu depois disso porque eu não me lembro. No outro dia não tinha mais hino? O que aconteceu? Não sei. Foi minha última memória desta história.

Gisele – Você tem falado de vários momentos de desconforto. Eu queria saber se além dos seus momentos com o violão, houve outros momentos em que você se sentiu confortável, mesmo que não tenha sido com a música.

Andrea – Na hora em que você perguntou eu senti um momento de conforto, mas foi com música também. Eu cantava e tinha na casa dos meus pais um toco grande. Eu subia naquele toco, que era meu palco, e ali eu cantava o dia inteiro. Eu pegava dois pedaços de pau, duas varetas, e ficava fazendo ritmo. Aquilo de fazer ritmo era uma coisa muito libertadora. Muito libertadora! Era muito importante pra mim fazer ritmo. Agora, um lugar que me dava conforto era ir na casa do meu avô, que era no meio do mato. Meu avô caçador. Ele tinha uma casa de pau a pique. A gente dormia em cama de jirau. Eu sentia o café feito no fogão a lenha. Aquele cheiro, a caça…tudo isso me dava um conforto de terra. A terra me acolhe. A terra é minha casa. Como se eu não precisasse de pai, de mãe, de hino. Eu tenho a terra, sabe? A terra sempre foi um lugar que me deu conforto. Fora a música, a terra!

Gisele – Quando você fala das suas memórias, sempre me dá a sensação de que sua experiência foi bastante solitária no início. Você se sentia muito sozinha mesmo? Como foi convidar outras pessoas a entrarem nesta jornada com você?

Andrea – Você sabe que no começo eu não sabia que eu fazia isso? Eu não sabia também que eu tinha uma coisa que abria. Eu ia dar minhas aulas…começava dando aquecimento, vocalizes. De repente, no intervalo entre um vocalize e outro, a pessoa falava: “Andrea, eu queria te falar uma coisa…”. Isso acontecia com todo mundo e todas as vezes! E a pessoa começava a se abrir. Como eu comecei a dar aula muito nova, as pessoas eram mais velhas que eu. Aí, eu falei: “nossa, será que é o canto que faz com que isso aconteça?”. E eu acho que sim, porque ele está mexendo lá com a voz. Então, eu começava a falar. Como a pessoa começava a abrir o mundo dela, eu também achava sincero abrir o meu. A pessoa estava me dando um voto de confiança e parecia que era meio uma moeda de troca. Eu também tinha que dar o voto de confiança pra ela. Eu começava a falar coisas sobre a música, sobre como vinha aquilo pra mim. Da mesma forma que eu fui ter confiança no trabalho a partir do olhar do outro, eu também fui percebendo que podia abrir as minhas coisas íntimas a partir do que o outro foi abrindo pra mim.

Nathalia – E a tal ponto que você não sabe dizer se aquilo realmente era com você ou se era com o outro…isso que você fala do compartilhar? Bate num lugar onde o que o que acontece com aquela pessoa ressoa no meu acontecimento. Tem a ver com isso? Encontros…

Andrea –Eu fui percebendo que a natureza da natureza é o compartilhar. Então, como eu estava compartilhando, sem saber, eu pensei que eu estivesse simplesmente dando uma aula. Por isso, eu falo que tem uma diferença entre dar aula e compartilhar um conhecimento. Eu não dava aula. Não chegava com uma coisa pré-definida. Eu corria o risco de não preparar a aula e deixava que a impressão daquela pessoa começasse a me levar para os exercícios… mas nem eu sabia que aquilo era um risco. Foi muito espontâneo, eu não tinha nada preparado. Claro, sempre tinha meus apoios, um Vaccaj (método de ensino de canto lírico), algumas árias para a tessitura vocal daquela pessoa, enfim… Mas, mesmo assim, desde sempre, mesmo quando a minha linguagem era mais voltada pro canto lírico, já havia uma abertura para o ‘compartilhar’… Eu deixava o outro existir, dava espaço pra que o outro existisse no acontecimento do trabalho.

Axé Odara!

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