Música erudita e fronteiras

É meio ser persistente, meio ser transgressora, meio ser rebelde. Se você não tiver uma pitada disso, é muito difícil você  atravessar.

Andrea Drigo

Entrevistadoras: Gisele Lavalle e Nathalia Leter

Ilustrações: Andrea Drigo

Nathalia –Você é regente de formação clássica, erudita. Mas, o que é a tua experiência como regente no trabalho do Caminho do Canto?

Andrea – A formação como regente foi muito importante, principalmente para eu  entender que existe um regente, alguém que tem um conhecimento do dentro e do fora. Ele vê um pouquinho antes e consegue dar algo. Só que na minha formação, o regente tinha o controle da situação. No Caminho do Canto, o regente tem o contorno…ele ajuda a auxiliar o contorno…elabora o contorno da situação. Na minha formação, o regente sempre sabia muito. Aquela figura que sabe tudo. Na regência do Caminho do Canto, eu sei junto. Quando abrimos os trabalhos, eu também estou vendo a coisa se formar ali. Não tenho como chegar com uma coisa totalmente elaborada, estabelecida. Claro, tem os trabalhos que são as regiões, sonoridade-som, formadores, que são as ferramentas que dão o contorno pra gente. Temos estas ferramentas, mas, como utilizar é só na hora.  Eu fui aprendendo na prática do Caminho que o regente também tem o seu regente. Eu tenho que ficar aberta pra um regente que está me regendo. E no trabalho de música tradicional, é como se tudo nascesse a partir de um único regente. No Caminho, este regente, que eu sou, está sendo regido por outro regente, que eu acredito, que tenha outro regente. Então, são camadas de regência.

Nathalia – O “sair da frente” significa dar espaço pra que este regente guie? E como se prepara um corpo que permite que esta regência aconteça?

Andrea – Então, primeiro, a gente tem que saber que esta regência tem movimentos que já são espontâneos e já têm força ali. Quando eu proponho que o peregrino seja regente em alguns exercícios, eu sei que ele ainda não tem noção de como dar este contorno. Mas, primeiro, eu quero que ele perceba que já tem alguma coisa lá dentro. Ele já tem um regente ali dentro que ele mesmo desconhece. O primeiro passo é você saber que algo dentro de você já te rege. Aí, você vai descobrindo a sua potência, as formas de trazer e trabalhar com as ferramentas e, então, começar a reger da maneira que você é, que você tem estrutura.

Gisele – Você vem de uma formação acadêmica, que já traz muitas regras para o aprendizado, e quando a gente entra no trabalho do Caminho, tudo é muito mais experiência e momento presente. Como foi incluir a técnica e chegar neste “entre” no trabalho com os peregrinos?

Andrea – Com conflitos, vários conflitos no sentido de atrito mesmo. Foi atritando um lugar bem estabelecido, da música europeia, ocidental com algo que não tinha um nome ainda, mais voltado ao subjetivo. Mas, eu também sentia que dava para se criar uma técnica a partir deste lugar. Este atritar tem muito a ver com a história da pérola. Só quando entra a areia na concha e inicia o atrito, que a pérola começa a se formar. Então, a história começou a partir deste atrito de um lugar já muito determinado e que deu certo, com um outro lugar, que era nada. A música europeia entrou como se fosse a areia na concha e ali eu fui deixando também ser atritada. Porque eu poderia ter fechado e falado que era loucura, que não existe, que era uma fantasia, que não ia dar técnica pra ninguém. Claro que estes pensamentos passaram por mim. E a vontade que dá é você correr de volta pro estabelecido e fugir do acontecimento, daquela areia. Mas, a música europeia foi super importante porque ela era a minha areia. Eu fui deixando ser atritada até que eu comecei a ver que estava se formando alguma coisa, que era esta pérola.

Nathalia – Pra existir este conflito foi necessário que algo em você experimentasse um outro lugar que te alimentasse, que tivesse mais verdade do que aquela forma que estava pronta. Quando foi a primeira vez que você experimentou este lugar na música?

Andrea – Interessante…eu comecei a pensar nisso quando você estava perguntando. Na verdade, foi o contrário. Eu vim desta experiência do desconforto, do não caber, do não cabimento. A música que eu ouvia e sentia desde criança não tinha um cabimento. O estudo da música formal fez com que tivesse um cabimento em algum lugar pra eu conseguir ver alguma forma. A música que eu já ouvia, que eu fazia, não tinha um cabimento em lugar nenhum. Meu trabalho com a música erudita, no instrumento, na voz e o estudo da harmonia musical me ajudaram a ter cabimento. Por isso, nunca me podou. Eu pensei: se isso que eu faço é música também, de verdade, ela vai ter forças pra durante um tempo ficar contida para eu aprender harmonia musical, pra eu ter como discutir. Era tudo muito intuitivo. Eu não tinha linguagem. A música erudita, na verdade, me deu linguagem pra  formar a linguagem da minha música.

Nathalia – As pessoas costumam buscar o canto como bem estar e você traz uma fala, que é o contrário…pra gente talhar esta voz, muitas vezes, é a partir do desconforto. Fala um pouco desta jornada de ir em busca desta voz, deste lugar que é singular.

Andrea – Imagina: você sabe que vê alguma coisa, tem alguma coisa mas, você não tem linguagem pra até discutir com uma linguagem que já existe. Discutir no sentido de argumentar, que é legal, que sempre cresce. Você não quer vencer nada. Você quer compartilhar. Então, pra eu poder compartilhar, eu precisava ter uma linguagem. Este lugar tradicional me ajudou a ver, a trazer uma linguagem nova e aí, eu fui percebendo mesmo…como eu atravesso este desconforto? Porque era um desconforto ter que caber num lugar. Mas, eu tinha muita fé, muita certeza. Era algo que eu não sabia mesmo, mas, eu sabia que alguma coisa ali tinha pra mim. É meio ser persistente, meio ser transgressora, meio ser rebelde. Se você não tiver uma pitada disso, é muito difícil você  atravessar. Porque você acha que aquele jeito dá certo, né? É um jeito que está funcionando e funciona mesmo. Só que não funciona pra você. E como eu vejo que não funciona pra um monte de gente. Então, todo mundo que está no trabalho também são pessoas que falam, que começam a despertar: “é mesmo, aquilo também não estava mesmo funcionando pra mim e eu estava indo porque eu não tinha outra opção, nem sabia”.

Axé Odara!

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