Eso e Felicidade

A felicidade que vendem é aquela que se você for bonitinha, certinha e fizer como tem que ser feito, você vai ser feliz, as portas vão se abrir. E não é assim. Por isso, as pessoas não são felizes…é sempre fora. Não dá pra ser uma porta comunitária, tem que ser uma porta própria, com a sua chave.

Andrea Drigo

Entrevistadoras: Gisele Lavalle e Nathalia Leter

Nathalia – Quero falar um pouco sobre a coragem de retornar e rever a infância, de sentir o que é doloroso, resgatar feridas, como lugares amortecidos, que a gente não quer tocar. Você vai crescendo, tudo vai ficando anestesiado e a voz não ressoa em lugar nenhum porque ela não pode…

Andrea – Não pode, porque se ela ressoar ela vai fazer aquilo (a ferida) ressoar! Durante um tempo, se você deixar aquela voz reverberar, ela vai começar a ressoar naqueles espaços que você não queria tocar. Vai entrar em ressonância com aquele lugar e ressoar o que já soou ali.  Primeiro, só fica naquele estado latente, original da dor. Agora se a gente tem a coragem de ver o que a gente viu e deixar ressoar aquilo, é possível pegar e fazer um desenho novo no espaço. Só com a volta da mesma origem, da mesma matéria, dos mesmos elementos químicos que a gente pode fazer um novo desenho. A gente tem que ser meio ninja, redesenhar e falar: isso é meu, agora sou eu que dou conta disso.

Nathalia – Então, o  treinamento técnico consiste em treinar como faz quando esta energia volta?

Andrea – Por isso o nosso trabalho da sonoridade: ouvir na sonoridade. Ela está vindo e na hora em que ela entra na gente, a gente dá aquela moldada (faz um movimento de espada desenhando no espaço) e…(começa a cantar).

Nathalia – Então, uma voz habitada, com presença, é a de uma pessoa que tem coragem de sentir? E o que é sentir? Pra gente poder diferenciar do sentimentalismo.

Andrea – Sentir. Sente-ir.

Gisele – Sempre levando o movimento em consideração…

Andrea – Aí, entra o medo do desapego. Aquela ferida ficou tanto tempo e você diz: sente-ir. Começa a sentir e a escutar sua voz em tempo real. Começa a brincadeira gostosa, começam os desenhos. Como se estivesse direcionada a você. Direcionada para que você dê um movimento pra ela e continue fluindo. Não volta pra te oprimir, volta pra continuar fluindo.

Nathalia – Então, o medo de cantar que a gente sente no centro da roda é o medo de que se esta energia vier, talvez eu não dê conta?

Gisele – E também tem o lance do apego. Porque se eu não quero deixar o negócio fluir, posso estar querendo que aquilo continue comigo.

Andrea – E quando a gente fala “esta dor é minha” significa que ela está voltando pra mim, para eu desenhar, redesenhar.

Nathalia – Eu me lembrei muito daquele artigo sobre os Esos, que é como se a gente tivesse o bolso cheio de pedras e à medida que a gente vai trazendo os Esos e limpando as camadas, curando, vai jogando estas pedras. E chega um momento em que a gente entra no nada e tem a ver com o ficar sem Deus. Você está sem as pedras, mas suportar o nada parece que é pior do que carregar o peso, né?

Andrea – Eu dizia isso porque, pelo menos, as pedras ocupavam um espaço. Conforme você vai tirando, não tem mais nada que ocupa ali. A gente tem muita dificuldade com os espaços vazios. Queremos ocupar aquilo com alguma coisa.

Nathalia – Como foi o seu trabalho de sair da frente a partir dos Esos? Como você foi limpando ou descascando esses nãos? Ou como você trabalhou as suas memórias?

Andrea – Chorando muito, esmurrando almofadas. Muito difícil, né? Engraçado, mas quando eu falo em Eso, em entidade sonora, as pessoas perguntam: “Andrea, Eso também pode ser alegre, né?”. A criança realmente sofre muito com a falta de compreensão ou por não ser vista.  Às vezes, a forma como ela é vista também machuca porque as pessoas podem vê-la de uma forma que ela não é. Eu sinto que tem muita coisa que machucou mesmo, mas, é claro que o Eso pode ser alegre. Eu fiz um balanço do meu Eso e tenho mais coisas sensíveis, fortes e talvez uma meia dúzia de coisas legais. Mas o resto é tipo levantar as mangas e mãos à obra mesmo de si, de se reconstruir. Tem uma figura que é demais que é o Bachelard, que fala da infância reinventada. Claro que eu reinventei a minha infância muito antes de conhecer Bachelard, mas, com certeza ele já era um mestre que estava na sonoridade. Eu tive que reinventar. “Ah, então, você mente da sua infância?”. Não, eu só coloquei Deus na minha infância; eu sonho a minha infância. Eu entendo quando falam que a vida está nas nossas mãos porque tem uma hora em que você tem que decidir. A gente não sabe o quanto a gente carrega de peso e de memória em cima do que a gente chama de verdade. E ou a gente fica chafurdando em cima naquilo ou então, você se reinventa…reinventa uma infância, um pai, uma mãe, uma situação. Fui virando perita em reinventar. Chegou uma hora em que eu reinventei tanto que eu percebi que este pai que eu reinventei foi, realmente, o pai que eu tive. É uma coisa de afinar. Hoje eu sei que este pai que fez aquilo, na verdade, ele queria ter feito isso. E foi por conta disso que hoje eu sou. Tudo isso é sair da frente. Vão caindo por terra todos os conceitos: “se fosse assim, eu faria ou eu seria assado”. Isso não existe neste sentido. Foi assim…tá! E neste “foi assim”, eu reinvento. Tenho coragem. E eu só consigo reinventar alguma coisa se eu tiver coragem de entrar no que foi, ou pelo menos, no que eu acredito que foi. Porque não adianta eu ficar fugindo e reinventar a partir da negação. Eu reinvento a partir da aceitação. Eu aceitei, eu reinventei e decidi ir pra frente.

Nathalia – Então, além deste sair da frente, tem que tirar as pessoas da frente delas mesmas também, né? Porque talvez o que a pessoa pôde ser pra você não necessariamente é a essência dela.

Andrea – Como nosso trabalho de voz, a gente vê a pessoa cantando e aquilo que ela está cantando, a voz que ela está trazendo é o que está, mas, não necessariamente, é o que é. Aquilo é o que está em potencial…a mesma história da infância. Hoje em dia, olhando pra esta mãe, olhando pra este pai, eu reinventei ambos na sua potência. E isso me libertou completamente. Se eu fosse falar, o que mais fez eu sair da frente foi ter reinventado meus pais e ter aceitado. Prefiro falar em aceitação a falar em perdão. E na hora em que você tira pai e mãe da frente, aí, é com você, né?

Gisele – E este “aí é com você” traz uma grande responsabilidade, né? Igual quando a gente começa a reconhecer nossa voz aqui no Caminho. Queria que você falasse um pouco deste conceito que você costuma trazer nos encontros de que “sim, a felicidade vai chegar, vai desaguar”. Por que você acha que a gente teima tanto em não aceitar a nossa potência? Talvez tenha a ver com isso que você está falando do perdão e da aceitação…

Andrea – É a mesma coisa, a mesma origem…se eu aceito passar por esta não aceitação, pelo que é difícil…se eu aceito passar até por aquilo que eu não aceito, eu sei que vai ter uma dor, primeiramente, mas ao mesmo tempo, eu também sei que vou receber uma coisa muito boa. O que é muito bom? É ser senhor de si. Uma pessoa que se apodera de si nada mais pode ir contra esta pessoa. Não tem mais “fizeram pra mim”. Ninguém mais pode contra este ser. Claro que a gente sabe desta potência, mas, a gente sabe que pra chegar nela, a gente vai ter que passar por certas coisas, este lugar de dor, este lugar profundo que a gente teme. A gente tem tanto medo que a gente não vê que já está lá, que já construiu coisas e de repente, começam a  vir os presentes. E a gente não quer receber os presentes porque parece que é uma barganha: se eu receber vou ter que ir pra dor, aprofundar. Na verdade, você está só recebendo isso porque já passou. Aquele ditado: “se você está sorrindo muito agora, vai chorar depois” está muito gravado. Se eu aceito a ação agora, alguma coisa vai me ser pedida e eu acho que eu não consigo, não posso. E a voz é incrível…ela está quase saindo, mas, a gente não deixa. Se ela sair, eu tenho que bancar. E se depois ela não voltar mais? Então, eu já prefiro não ter. Porque este lugar de não ter eu já conheço, consigo bancar. Este lugar de ter, eu não sei se eu consigo bancar. Como eu vou manter?

Nathalia – E o que é felicidade pra você?

Andrea – Felicidade pra mim é estar no perrengue e saber que estou no perrengue, estar na alegria e saber que está na alegria, estar aqui e saber que está aqui. Ter energia para ter presença integral. Ser uma pessoa integral. Eu agora estou com uma baita dor de cabeça, eu sei, esta dor me pertence e eu fico feliz de ter esta consciência.

Nathalia – E qual é a felicidade que vendem?

Andrea – A felicidade que vendem é aquela que se você for bonitinha, certinha e fizer como tem que ser feito, você vai ser feliz, as portas vão se abrir. E não é assim. Por isso, as pessoas não são felizes…é sempre fora. Não dá pra ser uma porta comunitária, tem que ser uma porta própria, com a sua chave.

Axé Odara!

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