O começo de um caminho…

Estas entrevistas fazem parte do projeto de registro da linguagem O Caminho do Canto. A ideia é seguir um formato de  ‘livro aberto’, escritas em processo, uma obra viva…tecida de fios narrativos, caminhos que se bifurcam e voltam a se encontrar, sempre retornando a temas já tratados, revisitando os assuntos sob uma nova perspectiva. Esperamos que a leitura seja inspiradora para todos.

Entrevistadoras: Gisele Lavalle e Nathalia Leter
Ilustrações: Andrea Drigo

Andrea – Falando sobre eIMG_3413ste livro, penso que seria interessante que o leitor possa se sentir em movimento constante, no fluxo enquanto estiver lendo. Porque para que a música aconteça, para que a voz aconteça, a gente tem que sair da frente. Esta ideia é muito clara pra mim porque eu mesma tive que sair da frente; eu tive que sair da frente dos sins e dos nãos da vida. A gente costuma ficar muito apegado ao que não deu certo e ao que pode ou poderia dar. Aí, quando você vê que nada disso é o que é, você vira nada. Então, não existe fazer tudo bonitinho e certinho porque Deus vai me dar coisas? Aí, você começa a sair da frente. Foi um pouco isso que aconteceu comigo. Eu vim de uma vida que era um não bem grande. Eu vim de um deserto de sutilezas, só de coisas mais cruas. Eu fui vendo que antes de qualquer coisa eu tinha que vencer aquele deserto. E pra isso, eu fui me armando de coisas. Só que chegou um certo momento em que não tinha mais deserto, não tinha mais certo, nem errado. Eu só tinha uma voz para propagar.

Nathalia – O que foi este momento de viver o ‘não’?

Andrea – Eu esperava muito da vida. Esperava da vida que eu criava internamente. Fui vendo que a vida que eu vivia não era a vida que eu achava internamente, então, tinha um descompasso entre a vida interna e a externa. Primeiro eu passei por um momento de “sem Deus”. Pra mim este momento é parar de acreditar nas coisas. Já não acreditava mais que se eu fosse boazinha eu iria ter isso ou que se eu fosse competente, eu teria aquilo. Aliás, fui percebendo que quanto mais eu tinha competência, mais as pessoas fugiam. De alguma forma, a minha competência assustava um pouco algumas pessoas. Mas fui percebendo que tinha um lugar em que eu falava e as pessoas me ouviam. Aí, isso foi ficando pesado, porque eu achava que eu tinha que dizer alguma coisa, que eu tinha que dar conta. Comecei a me montar de dizeres, tentava ler e segurar uma frase, uma ideia. E eu não conseguia segurar nada. Quando eu começava a falar, saía qualquer coisa. E quanto mais qualquer coisa que saía, mais as pessoas entendiam. E eu não entendia o que que as pessoas tinham entendido do que eu tinha dito. Na hora em que eu comecei a sair da frente, eu não reparei que estava saindo da frente. Não sabia que aquilo que eu estava fazendo era ‘sair da frente’. Só fui percebendo que acontecia assim: eu preparava algo, planejava dizer X, e na hora, começava a falar Y. Era como se alguém estivesse falando pela minha boca. Eu não entendia absolutamente nada do que estava dizendo. Eu só procurava manter a dignidade porque tinham 20 pessoas na minha frente me ouvindo. O que eu chamo de manter a dignidade, na verdade, é sair da frente. Fica, confia e continua falando. Eu comecei a perceber que eu estava saindo da frente pelas pessoas, pelo outro. Através do outro, vi que eu já não estava mais ali. Eu ia falando umas coisas e, a partir da compreensão do outro, ia entendendo o teor do que dizia. E só entendia o teor… não entendia muito o conteúdo. Fiquei durante muitos anos me firmando só no entendimento do teor e confiando que eu tinha que chegar ali e falar. Eu não tinha muita consciência do que ia dizendo, inicialmente. Foi aí que veio a expressão: eu com-fios. Porque, primeiro, eu tive que confiar. Tive que confiar muito no outro porque foi através dos olhos do outro, da compreensão do outro que eu fui me entendendo. É uma coisa meio louca! Eu confiei nos olhos do outro; que ele entendia o que eu dizia e, portanto, aquilo voltava pra mim… reverberava. A minha vida já começou a partir de um não. Fiquei durante muitos anos me sentindo do ‘lado de fora’… não foi fácil. O que quer dizer um não? Eu venho de uma família de poucos recursos, que não podia nem bancar os estudos de que eu precisava. Quando percebi este grande não, eu vi que podia criar um mundo pra mim e então ir pra este “sim”. Por isso que eu falo que não tem “não”, nem “sim”, na real. Porque foi a partir do “não” que eu busquei meu “sim”. Então, este “sim” é “não”? É tudo a mesma coisa! Chegou um momento em que percebi que não adiantava mais ficar naquele estado de desejar isso ou aquilo. A única coisa que eu tinha a fazer era me atirar. E, aos poucos, fui aprendendo. Nunca consegui adivinhar nada do que iria acontecer. Tinha que confiar que eu verdadeiramente queria alguma coisa e aí aquilo acontecia. Por exemplo, eu não tinha dinheiro pra estudar, mas de repente surgia alguém que reconhecia alguma coisa em mim e decidia me apoiar nos estudos. Então, fui vendo que as pessoas confiavam no que eu dizia. Aí eu pensei: espera um pouco, tem alguma coisa que é na minha voz. O que eu falava era forte. Fui me dando conta de que a minha voz tinha um poder com as pessoas; elas me entendiam. Foi assim desde criança. Os meus professores sempre foram me orientando pela compreensão que tinham de mim a partir a minha voz.

Gisele – Dea, começamos falando da sua voz. E o violão? Como e quando ele entrou na sua vida? De alguma forma ele bateu de frente com a potência da voz ou já entrou em harmonia?

Andrea – O violão foi fazendo uma cama silenciosa para que acontecesse a minha voz porque ele chegou muito antes. Eu ainda não tinha voz. No meu núcleo familiar eu não conseguia ter uma voz. Sou a filha mais nova e eles estavam envolvidos em assuntos muitos diferentes dos meus. Então, eu ficava com o violão. Minha irmã do meio até hoje brinca: “a gente pensava que você fosse autista”. Ele foi a sonoridade e a minha voz foi o som. Eu queria ser concertista. Só queria tocar. E meu instrumento era o violão. Porque eu não tinha postura pra vida. Eu era muito frágil pra este mundo, até para as pessoas da minha idade. Era muito quieta, via outras coisas e isso me fragilizava. O contato das pessoas comigo era sempre através do violão. Porque a turma falava: “ela toca!”. Aí, eu chegava com o violão e tocava. O violão, na verdade, foi a minha primeira voz.

Nathalia – Você falava através dele…

Andrea – Ou ele falava através de mim. E aí, começa a voz. Então, o violão pra mim é a sonoridade mesmo. Estes dias eu escrevi: “Todo o universo ainda mora no braço do meu violão.”

Axé Odara!

entrevista andrea

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