Um encontro com Luiz Fuganti

Um encontro,

por Nathalia Leter (blog Sonora Letra)

No ano de 2000 e alguma coisa formei-me em jornalismo, numa dessas faculdades que não me despertaram nada de vivo ou novo. Sem jamais ter trabalhado num único jornal, abandonei o território antes mesmo de constituí-lo. Meu trabalho de encerramento de curso já anunciava a total inaptidão para a carreira, uma vez que propunha um explícito envolvimento da subjetividade do autor/repórter na produção do texto jornalístico, a partir das impressões, dos afetos, dos encontros com o fora. Que o autor pudesse ao menos ser honesto, ao não tentar se imiscuir daquilo que está comunicando, mesmo que ele próprio não saiba como se posicionar diante dos acontecimentos. Assumir a própria presença como uma testemunha, como ‘um alguém que esteve ali’ é, a meu ver, algo mais honesto.

Nunca soube cumprir bem o papel de vestir um outro Quem para ir ao mundo levando perguntas nas mãos. Pois as perguntas jamais me pertenceriam, a pauta me enviesaria o olhar e a edição mutilaria meu texto, de modo que eu sempre estaria emprestando meu corpo a um outro quem. Até aí, nenhum problema, afinal o próprio Deleuze nos diz que falar, mesmo quando se fala de si, é sempre um ‘falar no lugar de alguém’. Mas que este alguém seja uma instituição retardatária, conservadora, autoritária como a mídia, sustentáculo dos discursos do poder… aí não, isso eu jamais consegui fazer!

Não porque me julgasse melhor que os outros colegas e amigos que estão, de alguma forma, lutando para tornar esse veículo mais saudável e útil à vida humana. É que, no fundo, eu nunca consegui acreditar nessa linguagem de uso comum e que vulgarmente empregamos na produção da notícia. Não existe linguagem inocente, que não carregue algum tipo de mitologia. Portanto, investigar ‘Quem pergunta?’ sempre me pareceu mais importante e preferi deixar de escrever a falar por alguém ou em nome de uma força que desconheço.

Mas o porquê de eu nunca ter me enquadrado no perfil de uma jornalista é algo que, de fato, ainda não havia compreendido muito bem até a noite de ontem, após uma arrebatadora conversa com o filósofo e arquiteto Luiz Fuganti. Na casa dele, acompanhada por Andrea Drigo e Maria Fernanda, creio que vivi algo que se possa chamar de um ‘encontro’. Ora, os encontros… Que será isso? Será que nós sabemos o que é, verdadeiramente, viver um encontro com todas as implicações e os desdobramentos que ele nos provoca? E eu lá quero isso? Estou pronta pra isso? Pelas bordas que nos contornam e que nos conectam, na superfície das fronteiras, onde as trocas acontecem muitas vezes de maneiras sutis, porém violentas, vi que algo se sucedeu em mim a partir do contato com a presença dessa figura rara. As falas de Fuganti são absolutamente desconcertantes em todos os níveis e sintaxes. A esse golpe de potência, eu me dizia ‘agora vai, mergulha nisso Nathalia, já que foi você mesma quem procurou’ – Mas quem em mim procurou?.

Quanto de mim já não estava começando a se acomodar? Quanto de mim já não queria se ajustar numa certa estrutura, num certo padrão de vida, num certo jeito de ser ou de vestir, no casamento, na casa, nos projetos, no trabalho, enfim nessa forma que criei: este pódium que penso ter, finalmente e com muito empenho, ‘conquistado’. Não, eu realmente não estava ligada nesse ‘quem’ em mim. Estava lá pronta para criticar os outros, falar sobre os outros, apontar os culpados, lastimar os fracos, maldizer os poderosos, desfraldar os mentirosos e me congratular com os que, assim como eu, ‘recusam-se a se colar no poder’. Mas, ops…

Eis que há alguém ou algo em mim que também quer reagir, quer conservar, quer manter o controle e o padrão, quer chegar a algum objetivo. Não estou a salvo desta pegajosa atração do poder que nos quer apegados a qualquer coisa que nos impeça de fluir. Estava lá, sorrateiramente se colando em mim enquanto eu, absorta nas ações, nem havia me dado conta… Até a noite de ontem. Percebi, não sem espanto e certo desconforto, quanto de mim também não vinha querendo se estabelecer e, com isso, perder a potência. Pois o apego a qualquer forma e de qualquer gênero configura um bloqueio dos fluxos, das forças criativas, potentes e afirmativas da vida.

É fácil falar sobre isso quando se está morto, alheio, achando muito bonito discutir esses conceitos e se sentindo bem consigo mesmo por estar falando sobre filosofia. Mas sentir tudo isso, abalar-se com isso, incomodar-se a ponto de querer sair deste lugar, desfazer-se das formas para fluir com as linhas, deixar ser atravessado pelo acontecimento e se preencher do que quer que seja, isso já é outra conversa! Quem é que banca viver dessa maneira? E essa é a pergunta que eu não fiz a Luiz Fuganti – é ele quem nos lança. E nos apresenta a vida e a natureza no seu mais alto nível: como infinita potência de produção e diferenciação de si.

E com vocês: A natureza!!!!

– D de DESEJO

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Um comentário sobre “Um encontro com Luiz Fuganti

  1. Muito boa a reflexão, Na. Me faz reforçar a ideia de que não existe mesmo a chegada ao ponto final. Às vezes nos movemos tanto, mudamos tanto que parece que já atingimos a meta, especialmente porque nos sentimos realizados…. Aí a gente descobre que ainda falta muito, rs.
    Muita saudade de seguir essa eterna busca ao lado de vocês.
    Bjs

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