O Segundo Livro do Tao

O cozinheiro do rei Wen-hui, Ting, estava esquartejando um boi. Cada toque de sua mão, cada ondulação de seus ombros, cada passo de seus pés, cada investida de seus joelhos, cada corte de sua faca estavam em perfeita harmonia. O príncipe, observando-o, exclamou:

– Muito bem! Como foi que adquiriu tal habilidade?

Largando a faca, Ting disse:

– Eu sigo o Tao, Vossa Alteza, que está além de todas as habilidades. Quando comecei a esquartejar bois, tudo que eu via era o boi. Após três anos, aprendi a enxergar além do boi. Hoje em dia, eu vejo com todo o meu ser, não com os olhos. Sinto as linhas naturais e minha faca desliza por si mesma, nunca tocando uma articulação, muito menos um osso. Um bom cozinheiro troca de faca uma vez por ano: ele corta. Um cozinheiro comum troca de faca uma vez por mês: ele estraçalha. Essa minha faca dura há 19 anos; já cortou milhares de bois, mas sua lâmina está afiada como nova. Entre as articulações há espaços, e a lâmina não é grossa. Não sendo grossa, ela desliza por ali; há espaço mais que suficiente para ela. E quando chego a uma parte difícil, diminuo o ritmo, me concentro, mal me mexo, a faca encontra seu caminho, até que de repente a carne se separa por conta própria. Fico lá parado e deixo que a alegria do trabalho me invada. Depois, limpo a lâmina e guardo a faca.

trecho de “O Segundo Livro do Tao”, de Stephen Mitchell

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