Joseph Campbell, “Reflexões sobre a Arte de Viver”

 

“Em minha própria situação, quando tinha entre onze e quinze anos, mais ou menos, eu era alucinado com os índios americanos. (…) Eu tinha uma pequena e bonita biblioteca, com belas estátuas de índios que faziam as vezes de suportes de livros, tapetes navajo e assim por diante. Um dia, a casa pegou fogo. Foi uma crise terrível na família. Minha avó morreu. Perdi tudo o que tinha. Agora, dou-me conta de que o espaço sagrado que criei para mim, o cômodo no qual escrevo, é, na verdade, uma reconstrução – uma recriação, se preferir – do espaço de minha juventude. Quando entro aqui para escrever me recordo dos momentos em que li certas obras que foram particularmente úteis. Quando me sento para escrever, presto muita atenção em certos pequenos rituais – a posição do bloco de papel e dos lápis, coisas assim. É uma espécie de ‘estrutura’ que me liberta. E como esse espaço está associado a certo tipo de atividade, ele a evoca novamente. Mas a atividade em si é a brincadeira.

(…) O espaço sagrado fica hermeticamente selado do mundo temporal. Quando você está em um espaço desses, não é possível entrar nele. Você está em uma zona eterna e protegida do impacto dos estímulos do dia e da hora. É isso que você faz na meditação: isola-se completamente. A postura da meditação é de fechamento, e a respiração regularizada aprofunda a exploração interior. O mundo é selado do lado de fora e você se transforma em uma entidade autocontida. Você precisa de um programa de isolamento para os momentos em que deseja se fechar: uma vez por semana, uma vez por dia ou uma por hora. Qual o valor disso? É uma necessidade absoluta, caso você deseje ter uma vida interior. Esse ato proporciona um intervalo, no qual o eterno em você se desliga do campo do tempo.

(…) Para visitar o Castelo do Graal, você precisa de um espaço sagrado. Depois, tendo encontrado a conexão em seu espaço sagrado, talvez você possa traduzi-lo para outras partes de sua vida. Primeiro, porém, você precisa de um pequeno poço de petróleo, por assim dizer, para chegar bem fundo. Viver em um espaço sagrado é viver em um ambiente simbólico no qual a vida espiritual é possível, no qual tudo à sua volta fala da exaltação do espírito.”

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2 comentários sobre “Joseph Campbell, “Reflexões sobre a Arte de Viver”

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