IV For Rainbowl

IV For Rainbowl – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual Fortaleza/ CE

 “Bicha não morre…vira purpurina”

Dia 26/11, 6a-feira. Após seis horas de vôo, entre escalas e conexões pela Bahia, chegamos em Fortaleza, onde fomos calorosamente recebidas pelo sol nordestino e pela produção do IV For Rainbowl – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual. Hospedados num acolhedor hotel próximo à praia de Iracema, onde uma grande estátua dessa personagem rende homenagem ao escritor cearense José de Alencar, nós e outros convidados ainda conseguimos aproveitar umas horinhas de repouso antes da abertura oficial do evento idealizado pela ativista Veronica Guedes.

A Abertura

Às 18hs, uma van nos aguardava para levar à Casa Amarela, espaço cedido pela faculdade de cinema da Universidade Federal do Ceará, onde serão exibidos alguns dos filmes que integram a mostra competitiva e também onde acontecerá o pocketshow de Andrea Drigo. Dois homens se reúnem ao grupo no saguão do Iracema Travel Hotel, um dos quais vestindo um colete de lantejoulas prateadas, um estiloso chapéu com uma estrela dourada na frente e luvas de metal. Ficamos imaginando quem poderiam ser essas figuras!

Já na sala de cinema da Casa Amarela, uma modelo e um ator vestido como travesti conduzem uma rápida e colorida cerimônia de abertura, que terminou homenageando a travesti Claudia, importante personagem na história do movimento LGBT, falecida nesta madrugada. Claudia era uma das principais convidadas do festival e vinha apresentar o documentário “Meu amigo Claudia”. Um silêncio foi feito em sua memória.

Nesta noite, outras ilustríssimas presenças vieram espargir purpurinas e paetês sobre o público da mostra: dois integrantes dos Dzi Croquettes, grupo que revolucionou as artes cênicas brasileiras e internacionais na década de 70. Ciro Barcelos e Bayard Tonelli (o de colete de lantejoulas prateadas) fizeram uma breve apresentação antes da exibição do documentário produzido por Tatiana Issa.

Bayard Tonelli: "Nunca se deixa de ser um Dzi Croquette"

 

 

Dzi Croquettes, o documentário

“A força do macho e a graça da fêmea” 

Luzes apagadas, o filme começa a rodar e, alguns momentos depois… O impacto. Claudia Raia, Ney Matogrosso, Marília Pêra, Gilberto Gil, Maria Zilda, Miguel Falabella, Beth Faria, ex-Frenéticas entre outros nomes começam a dar depoimentos sobre o enorme impacto e influência dos Dzi Croquettes no cenário artístico brasileiro, propondo uma linguagem inédita, de uma estética original, altamente experimental e andrógena que marcou toda a geração teatral e se espraiou com força avassaladora sobre todos que viveram essa passagem meteórica. Dividiam o palco 13 lindos corpos masculinos vestidos e pintados como mulheres, introduzindo a estética travesti, dançando impecavelmente coreografias incríveis, de um rigor técnico inquestionável. Poliglotas, intelectuais, pensadores, viviam todos juntos numa casa como uma grande família (tinha o pai, a mãe, as filhas, as irmãs da mãe, a camareira)e se amavam, se amavam de todas formas que o corpo, o coração a psique humana podem conceber.

Descobrimos, por exemplo, que Elis Regina extraiu todo um gestual e linguagem de movimentação corporal, além do conceito visual, deles; tudo o que conhecemos de Ney Matogrosso, Secos e Molhados; toda a escola de comédia composta pelos globais Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Débora Block, Diogo Vilela, Claudia Raia e Miguel Falabella com a TV Pirata; o surgimento do ‘Besteirol’ no teatro; a frase “Só o amor constrói”…tudo isso e muito mais, veio dos Dzi Croquettes. Liza Minelli, madrinha do grupo, fechava sessões especiais num teatro em Paris só para convidados como Josephine Baker, Catherine Deneuve e outros inesquecíveis nomes internacionais.

Após uma assistir a uma apresentação do espetáculo dos Dzi Croquettes, pais de família abandonavam suas casas, pessoas saíam pelas calçadas dançando com os postes de luz, homens passavam batom e andavam nas ruas… As travestis, até então socialmente marginalizadas, agora encontravam abertura para sair de suas casas ‘montadas’, com seus cílios postiços, maquiagens e perucas. Os trezes bailarinos, cantores e atores abriram os espaços para o ‘desbunde’ coletivo, verdadeiramente catártico. Um fluxo de liberdade insuflou os pulmões da classe artística e dos cidadãos comuns, irrompendo sob a pesada censura da ditadura militar…Eram corpos semi-nus, de musculosos peitos expostos, braços cabeludos agitando enormes e brilhantes asas de borboleta, em franca explosão dos sentidos, levando a sensualidade à sua expressão máxima, em toda a sua virilidade e feminilidade.

Pois bem.

E onde foi parar toda essa informação? – ficamos a nos perguntar. Como é que nós nunca tínhamos ouvido falar em Dzi Croquettes, antes deste filme??? Como é que tudo isso aconteceu e nós não sabíamos? Liza Minelli, Claudia Raia e Beth Faria contam que aprenderam diversos movimentos de dança com o lendário Lennie Dale, coreógrafo dos Dzi. Pérolas do improviso surgiam durante os espetáculos e resultavam em esquetes geniais, que depois transformaram em fórmulas do riso, repetidas à exaustão por nossa comédia de costumes até os dias atuais. Frases e nomenclaturas que se tornaram parte de nossa cultura…Até mesmo o termo ‘tiete’ surgiu no seio dessa insana e libertária comunidade que se formou em torno do grupo. E nós não sabíamos de nada disso?! Nos foi negada a fonte, o acesso ao local de onde tudo isso jorrou em todo seu esplendor e impulso criativo…Um legítimo boicote! A sensação que pairou ao final do filme foi essa: a memória dos Dzi Croquetes foi silenciada por uma classe artística que se forjou dessa linguagem, mas se recusava a citar a fonte. Saímos da sala sem saber como equalizar este gigantesco ‘ué!’ que se formou em nosso coração, ante a presença daqueles dois sobreviventes dos Dzi Croquettes que ali estavam, hospedados no mesmo hotel e até então completamente anônimos para nós.

Enfim, este foi o primeiro dia do festival: um contato com a classe mais popular e humilde de Fortaleza, que é o público freqüentador da mostra – bem diferente do ambiente hype e descolado do Festival MIX Brasil, de São Paulo. Jovens que enfrentam uma dura realidade em lugares onde o ‘desvio’ sexual é, muitas vezes, punido com morte. E o impactante contato com a história desses treze jovens e ingênuos artistas do subúrbio carioca que formaram os Dzi Croquettes, dos quais cinco já foram levados pela AIDS e outros três assassinados. Talentosos e esculturais rapazes que se rebelaram contra o embotamento e a caretice burguesa para ‘viver’ o teatro dentro e fora dos palcos, cumprindo até as últimas conseqüências a máxima cunhada pelo idealizador (a mãe) do grupo, Wagner Ribeiro: “Só o amor constrói”. 

Dia da premiação!!! Da esq. p/ dir.: Andrea Drigo, Bayard Tonelli, Igor Cotrim, Zé Tarcísio, Nathalia Leite e Nathalie Bernier

 

 Este documentário é simplesmente OBRIGATÓRIO!

Site oficial do filme: http://www.dzicroquettes.com/

(Em breve mandamos fotos daqui com os meninos dos Dzi Croquettes)

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