A montanha do centro do mundo

poder_mito-campbellJoseph Campbell, no livro O Poder do Mito, nos relata sobre a visão iniciática de um xamã americano chamado Black Elk. Ele ainda era bem jovem e disse ter visto a si mesmo no alto da “montanha do centro do mundo”, onde teve uma poderosa visão, pois estava enxergando ‘do modo sagrado de ver o mundo’. A montanha à qual ele se referia era o Harney Peak, na Dakota do Sul. Porém, logo em seguida, ele diz: “Mas a montanha do centro do mundo está em toda parte”.

Campbell explica que em todas as culturas, vemos a imagem arquetípica do ‘axis mundi’ (eixo do mundo), o ponto central ao redor do qual as coisas giram. Seria na realidade o lugar onde o repouso e o movimento se encontram; movimento é tempo e repouso é eternidade…seria o ponto onde o eterno beija sua própria face refletida no tempo. Pois bem, o cientista prossegue afirmando que quando tomamos consciência deste momento em nossa vida, ou seja, do aspecto eterno que circunda e fecunda nossa realização no plano temporal, estamos vivendo uma experiência mitológica.

“A montanha do centro do mundo está onde?” – Pergunta Campbell. Está em todo lugar…é onde Eu estou. O ponto de intersecção de todas as linhas – os fios – que vêem tramar este eu que aqui está, neste momento. Somos o colapso do desconhecido, derramando-se na esfera do tempo, adquirindo uma forma…Somos um mito vivo!

Quando nos sentamos em círculo para nossa meditação dos Rs, ativando nossa escuta das regiões e preparando nossos corpos-montanhas para receber a afluência da sonoridade, lançando nossos fios e ouvidos quanticos pelo espaço, estamos na realidade experimentando essa condição paradoxal de existência: de sermos o centro do mundo, porém conscientes de que os outros indivíduos também o são. Sentimos as linhas que nos atravessam, conectando nossa percepção a uma rede comum, um centro virtual onde todos estamos colados nessa essência como uma coisa única. E a partir daí expandimos nossa percepção de nós mesmos, observando o entorno do alto da montanha que somos de um modo sagrado – assim como o fez o índio sioux da história anterior.

O livro ainda nos lembra de uma definição de Deus que diz assim: Deus é uma esfera inteligível cujo centro está em toda parte e a circunferência em parte alguma. Desse modo o centro está aí onde você está. Mas o centro também está aqui onde eu estou. Segundo Campbell, esta é a maneira mitológica de ser um indivíduo. Você é a montanha do centro do mundo e a montanha do centro está em toda parte.

Nathalia Leite

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